22 de junho de 2017

"Dar o que se tem, isso é a festa, não é o amor"....aí Lacan disse.



Freud escutou de um paciente apaixonado que sua amada tinha "um brilho na ponta do nariz".  Parece prosaico, mas da a medida de como nos enlaçamos no outro. Buscamos algo que não sabemos, o que não temos. Mas o que notamos no outro é totalmente de nossa responsabilidade (criação/fantasia) e aí esta toda a diferença!  O amor é radical e ambivalente, produndo e violento, mas sobretudo narcísico. E a psicanálise deu um nó nesse conceito, incluindo as marcas inconscientes do sujeito que deseja, e que acusa a falta. Lacan em um dos seus mais ricos seminários (o 8º)  fala do banquete de Platão, e retorna à festa do nascimento de Afrodite, mito do nascimento do Amor, filho de Poros (Riqueza) e de Penia (Miséria).  Penia era uma pedinte e estava do lado de fora da festa mendigando, e Poros embriagado a encontra e concebe um filho nesse estado de torpor/dormência. Nasceu Amor, de um masculino passivo, desejável, e um feminino ativo, desejante. Ai está a chave! Aquele (o amante) que sente que lhe falta algo, mesmo sem saber o que é, supõe em um outro, o amado, que há algo que o completa. O eleito (o amado), por sua vez, fantasia ter algo a dar, mas não sabe bem o que é. Mas também é "falante" (sujeito da linguagem), e portanto faltante, como o amante.  E aquilo que o amado supõe ter para dar, não é o que falta ao amante. Assim ambos têm a dar um "sabe se lá o quê (um nada)". Porque o amante não sabe o que lhe falta, e o amado não sabe o que tem, e esse é um "não-saber" fundamental do inconsciente. O amor é um equívoco, portanto! Mas necessário. Afinal, como na festa do nascimento de Afrodite, se Poros e Penia soubessem o que faltava a eles gerariam Amor?

20 de junho de 2017

Não ceder de seu desejo.....a ética na psicanálise.



Uma importante diferença do campo da psicanálise, e outras terapias, é sustentar que o sujeito do inconsciente não é idêntico ao Eu. E isso tem relevantes consequências no manejo clínico.  Freud destrinchou o processo de constituição do Eu e os eventos determinantes para o psiquismo. Um, que chamarei de "castração imaginária", tem especial relevância porque remonta a encruzilhada estrutural de nos lançamos nas identificações parentais, na linguagem, na cultura, que são vias fundamentais para constituição do Eu. É fácil supor que algo cai da relação perfeita bebê/mãe. Primeiro desmamamos, depois ganhamos outro irmãozinho que merecerá mais atenção, depois a mãe é desviada para olhar/dormir com o pai, etc. e etc.Os exemplos são muitos, e o que importa é o caso a caso. Mas somos, e justamente pelo efeito da cultura, lançados a uma posição de perda, de falta inexorável, porque obrigatoriamente cairemos do lugar "bebê única causa de desejo da mãe". Tal legislação dura e castradora pode ser negada, renegada ou foracluida (e isso vai definir as estruturas clínicas, o que é assunto para outra hora). Mas se trata de uma frustração insuperável, pois UM (bebê) e OUTRO (a mãe) jamais farão UM. E outras relações que virão EU/OUTRO também. Ou seja, ao mesmo tempo que é uma baita "ferida narcísica", é também  organizadora, porque atravessa o corpo numa experiência de perda, mas circunscreve o sujeito em uma posição de se elaborar.
Prosaicamente, saímos da condição de "sermos falados" para "falar", como no exemplo "o Joãozinho é muito inteligente" narrado pelos parentes, para o próprio Joãozinho se reconhecer em primeira pessoa e dizer "eu quero isso/aquilo/aquiloutro, etc".  Ai que está a genialidade da coisa, somos "falados" e ganhamos um mandato dos nossos pais/sociedade. Isso é muito importante porque nos organiza nas identificações, mas ao mesmo tempo ficar SÓ nessa posição é uma encrenca cheia de idealizações que faz sofrer bastante. E angústias dessa natureza são extremamente correntes. Como a negligência de atendê-las! Afinal, restituir o Eu desse lugar para o sujeito ser constituido em outro é um trabalho e tanto! Portanto a diferença é que há um cálculo na psicanálise que a perda não é um déficit e nem uma falha como o neurótico quer acreditar.  A perda é condição fundamental para o desejo. E o sujeito vai se entreter com vários objetos contingentes (comprar um carro, ir pra Paris, ter um filho, publicar uma foto no Instagram, ter um novo namorado/a, e etc.), e isso nunca será suficiente. E portanto uma boa escuta psicanalítica é não ficar preso a esses emaranhado narrativo "dos objetos que tenho/quero" na inflação do Eu.  É dar suporte para o paciente poder se enxergar em outro lugar. E, como sabemos, os neuróticos têm vários truques para nada saber sobre sua falta/desejo (adiamentos, impedições, embaraços, fugas, etc), e o bom trabalho na análise é transformar essas "demandas de amor narcísicas" num desejo de querer saber sobre seu desejo. Fazer o anlisante não ceder, se implicar e se responsabilizar pelo que realmente deseja. Mesmo que isso seja um trabalho duro e demorado.  Eis a ética da psicanálise!

26 de maio de 2017

A palavra que marca o corpo......sobre pais e filhos!


 
Não é necessário fazer análise para entender o poder da linguagem (simbólico) no imaginário, e sua repercussão no corpo (sintomas). Gosto de dar o seguinte exemplo prosaico: imagine uma criança vigiada pelos pais em um ambiente público. Com a possibilidade de explorar um mundo diferente dos seus domínios, a criança se aventura e testa o que lhe é permitido fazer. E, sabemos, há pais mais ou menos permissivos, servindo como autoridade (a lei) para intermediar os limites dos filhos. Ou seja, há a experiência infantil, sempre útil, e uma intermediação dos pais, legisladores dos atos das crianças. O fato é que se essa mesma criança testar a autoridade dos pais, como por exemplo uma restrição de "não trepar na cadeira", e se der mal e cair, sua resposta afetiva (chorar ou não) e a intensidade da dor estarão proporcionalmente vinculados à reação dos pais. Numa escala oposta, eles podem dizer de um agressivo "Bem-feito, eu avisei sua peste!" e um "Não foi nada meu anjo, vai passar", cujo resultado serão sentimentos e dores de intensidade bastante diferentes. Daí não é difícil supor como as palavras "atravessam" e "marcam" o corpo", numa multiplicidade de exemplos que acontecem também na vida adulta.
E é importante imaginar as consequências devastadoras para crianças cujos pais não cumpram sua função simbólica de estabelecer uma  legislação que não seja incoerente e vacilante (uma hora pode, outra hora não pode!?).

22 de maio de 2017

O "corte" do simbólico....

5 de maio de 2017

É preciso dar nome ao Tsunami interior (angústia).....



Lacan ao longo de sua jornada psicanalítica introduz o ternário (Real - Simbólico - Imaginário) no campo analítico e ao fim o identifica a um nó borro-meano de três elos.  É um assunto bastante denso, mas basicamente se trata de três registros psíquicos na constituição o sujeito. O registro do simbólico que é o lugar da linguagem. O imaginário, da relação dual com a imagem especular eu/outro - o sujeito só consegue se constituir diante da confirmação dada pelo olhar "demandante" do outro. E o real, tudo o que não pôde ser simbolizado. Uma boa metáfora para explicar essa articulação seria supor uma situação aterrorizante de um desastre natural. O sujeito se encontra em uma praia quando aparece um surpreendente Tsunami. Ele sobrevive! A experiência (imaginária) estará guardada e inominada. E exatamente quanto ele constitui a narrativa que enlaça ele na experiência (fantasia/invenção) é que o horror (real) perde a potência.
Em uma escala corriqueira, não são assim os fatos do dia-a-dia? Maledicências, pavores, frustrações, invejas, medos, dissabores, ameaças de toda ordem e etc. A angústia (o real) que convoca o sujeito a elaborar e "dizer sobre" (o simbólico) "corta" o que tinha sido apreendido (imaginário), dando outros significados, podendo remover sintomas e vencer fantasmas do sujeito. Bom exemplo também é o quadro "O grito".  Ao pintá-lo, Edvard Munch pôde expressar (simbólico) algum processo de angústia (real) através de um grito que mesmo sem som é possível percebê-lo. Com certeza ele se sentiu muito melhor depois de fazê-lo!

  

28 de abril de 2017

Quando sofrimento e sucesso andam juntos.....

 
É um tipo de sofrimento bastante corrente aquele em que o sujeito se entrega incondicionalmente a uma imagem idealizada de si. Comum e que faz pensar, porque é uma forma de servidão voluntária (dívida simbólica) enfeitada, bonita e vistosa. Exatamente porque há sucesso e êxito social envolvidos. O sujeito é bem sucedido profissionalmente e economicamente, é inserido em uma "família ideal", em um projeto de amor, é belo e admirado, etc. E é justamente em nome dessa imagem (eu ideal) que ele se submete cruelmente a sacrifícios de toda ordem (investe contra si), e é preciso um esforço considerável  para se deslocar dessa posição. Isso porque requer ceder em alguns pontos que custam à sua imagem (fantasia/fantasma). Contam que alguns pacientes que chegavam à Clínica de Lacan, tendo o sofrimento como porta de entrada, estavam situados nessa posição. E, aos poucos, e com o avanço da análise, iam "perdendo" alguns atributos extremamente valorizados no contexto do social. E, obviamente, as pessoas cogitavam que a análise estava "piorando" o sujeito. Mas era o contrário.....

18 de abril de 2017

"13 reason why" - É preciso falar dos porquês.....



Assisti "13 reason why" no embalo de um suspense que te fisga e te leva compulsivamente ao desfecho.
No começo parece bobinho, com aquela atmosfera pasteurizada de Community Colleges americanas exageradamente explorada em filmes e séries, cujos estereótipos e sensos comuns implodem uma melhor elaboração ficcional. Mas logo a trama vai ganhando densidade e novos contornos, e o resultado final é muito interessante! Apenas duas coisas para dizer: li ali e aqui que a série deveria ser vista com cautela por abordar o suícidio juvenil, e o risco de instigar outros jovens. Penso radicalmente diferente! Aliás, sem fazer spoiler, a série trata justamente disso. Da "palavra aprisionada", de uma angústia radical (possível a todos!), do vazio e da sensação de "não-pertencimento" de uma jovem, fruto de um ambiente que destrói a espontaneidade e o desenvolvimento das narrativas individuais. Talvez seja esse o melhor ângulo do Bulling. De ser uma construção cultural do nosso tempo, subjacente a um estilo de vida alienado cujas opções são demasiadamente restritas, fartas apenas na aparência.  Freudianamente falando, da submissão coletiva a um superego interno tirânico e impiedoso, erguido a partir de identificações e ideias empobrecidos.     



6 de abril de 2017

É preciso o mundo desabar......

 
É muito comum sofrermos pelo o que não aconteceu. Como também, desconsideramos o que é parido no ato de sofrer. De uma certa maneira, há um momento em que a consciência precisa se angustiar. Com o propósito de redimensionar a experiência da vida. Um estágio que marque o desabamento de imagens de um mundo, e o erguimento de outro, que permita novas ações, desejos e movimentos. Eis o caráter ambivalente dos afetos. O desamparo que me angustia, pode ser o motor de uma reinvenção.
Freud vai nos lembrar que nossa primeira angústia fundante é a ausência da mãe. E dialogaremos com esse desamparo, revestido em novos fantasmas, por durante toda uma vida.
E assim seguiremos  nesse sujeito inseguro e neurótico que vai constituir substitutos ("outras mães"), que garantam nossa integridade narcísica, nossa demanda de amor e, sobretudo, nossa fantasia de sermos únicos e maravilhosos. Ou seja, seremos eternamente escravos a procura de um Senhor que nos diga o que fazer e, principalmente, que confirme que o fazemos é incrível, retornando ao estado de perfeição do "bebê majestade" que um dia fomos. Friso que é bem essa a posição neurótica que assumimos, de perguntar ao grande Outro (pessoas ou um outro simbolicamente constituído) "o que devo fazer" e depois cobrar ansiosamente a esse Outro a confirmação que o que eu fiz é sensacional.  Nesse contexto, uma travessia analítica útil cumpriria um percurso radical, de "desabar desse mundo".  De ter a angústia como porta de entrada, e na saída a liberdade de não estar submetida a um Outro imaginário que me escraviza!

24 de março de 2017

Narcisimo: tão velho quanto o primeiro ser humano.

 
Em 1914, Freud escreve "Sobre o Narcisismo: uma introdução", um texto importantíssimo para a evolução de sua teoria. Tal termo, aprisionado na linguagem popular corrente, sugere uma qualificação negativa do sujeito, excessivamente "enamorado" de sua própria imagem. Ainda mais em tempos de exagerado exibicionismo nas redes sociais!
E verdade, Freud não fala nada disso. Ele "despatologiza" o conceito, como aliás é o mais fantástico em todo seu projeto: revelar o normal, a partir do estudo que é considerado patológico. Enfim, a utilização deste conceito revolucionou sua teoria porque produziu novos desdobramentos no desenho do aparelho psíquico. E formulou a ideia como "complemento libidinal da pulsão de auto-conservação". "Descomplicando", o complemento aí é no sentido de expressar a "narcisização do sujeito humano” como via fundamental de toda possibilidade subjetiva; o ato de adquirir um corpo capaz de acomodar um "Eu", que uma vez constituído, sempre será ameaçado e por isso veículo de constante "investimento' para sua manutenção/proteção. Ou seja, com Freud temos que o "Eu" (ego) é desenvolvido, ele não "cai do céu", do nada. E haverá sempre uma modulação de doses de libido distribuídas para investir nesse "Eu" (ego) ou/e em objetos (outros), que pode contribuir para a definição de algumas estruturas clínicas  Exemplos? Alguém muito apaixonado: rebaixa seu amor próprio, e "investe" tudo no objeto (pessoa amada). Um sujeito com uma terrível dor dente. Tudo fica secundário, e todo investimento no Eu (ego) para enfrentar a dor. Ou seja, o narcisismo é tão velho quanto o primeiro ser humano. Não é sensacional?

20 de março de 2017

De repente, Outono.














De repente, outono.
O calor cede.
Os corpos se escondem.
As cores se recolhem.
De repente, outono.
A euforia cessa.
O ano começa.
A vida endereça.
De repente, outono.
As folhas no chão.
Tempo, céu azul.
Vinho e Blues.

15 de dezembro de 2016

"Nascemos no meio e morremos no meio"


Como diria Cabral de Melo Neto, "Nascemos no meio e morremos no meio".
Somos uma obra inacabada, e sempre há algo por vir. Quando nascemos já há um projeto anterior em curso, um nome que ganhamos, uma expectativa familiar que nos responsabiliza e etc. E quando partimos, é certo que nem tudo terá sido feito. Quando Freud fala em "complexo de Édipo" é uma ideia que não pode ser tratada no atacado. É falar de uma trama familiar que nos dá acesso ao simbólico, uma passagem para a cultura, valores que vão nos inscrever no mundo afetivo à luz de fantasias de nossa própria história. Ou seja, uma forma inescapável de nos situarmos no mundo ancorados numa legislação interna que gera adequação, mas também conflito. Porque põe a vida em marcha a partir de uma contradição insuperável. Somos extremamente narcisistas ao mesmo tempo precisamos do outro! E resta-nos lidar com isso.
O de aceitar que o preço que se paga para ver custa menos do que para não ver! 

28 de outubro de 2016

Lidando com os desejos...

Quando Freud fala sobre as pulsões propõe algo radical. O homem é um acidente da natureza, temos algo muito além dos instintos, podemos dar nome às coisas, o que torna nosso mundo muito mais interessante e perigoso. Ou seja, as sensações que derivam das possibilidades do corpo são registradas numa gramática própria. E o sentido do que se diz está num plano superior do que é verdadeiro ou falso. É mais valioso! Porque afirma a necessidade de figurar o mundo interno radicalmente singular de cada um. Como escutar de alguém que “a grama é vermelha", proposição ilógica e absurda, mas que acusa uma intenção afetiva de quem fala. 
Freud gostava de usar sistemas pra enquadrar o que inventava, utilizava termos hidráulicos, da economia (investimento libidinal, desinvestimento, bloqueio das pulsões), topologia (tópicas) e etc. Por exemplo, a ideia fundamental de recalque,  Verdrängung em alemão, algo como "força que bloqueia a pressão", transmite a ideia que intencionalmente (e de forma inconsciente) bloqueamos/censuramos alguma força interna, que poderia ser atendida nos termos de uma vontade psicológica. E essa operação de "bloqueio" gera seus derivados, que aparecem em sonhos, lapsos e, no pior (ou melhor) dos casos, em sintomas patológicos. Isso é interessante porque impõe a necessidade de desenvolvermos estratégias pra lidar com a energia disponível desse "aparelho humano". O de equilibrar um lado permissivo de atender parte das demandas internas (prazeres do corpo), renunciar outra parte (em nome da cultura, em prol de quem amamos, etc.) e sublimar outra, que significa renunciar o que não é possível, optando por uma realização substituta, essa bem mais trabalhosa (não posso "devorar" uma pizza, um corpo, mas "devoro" um livro). Capiche? 

11 de agosto de 2016

A importância dos sonhos....

Quem leu Freud facilmente se irrita (ou se diverte!) com o senso comum equivocado de sua obra.
O Livro “Interpretações dos Sonhos” é um caso típico, porque foi a pedra angular de sua obra,
e ainda hoje acham que é um guia pro significado de sonharmos com elefantes, dentes ou urubus.
Freud vasculhou toda literatura sobre os sonhos e encontrou enormes lacunas sobre a origem deles.
Percebeu que a alteridade radical entre o “estado de vigília”(despertado) e o “estado onírico” (sonhos) contribuía pra esquecermos os sonhos, dado que é muito difícil reter o que é inteligível, confuso e desordenado. E essa foi sua sacada genial!  De perceber que o ato posterior, o ato de tentar narrar os sonhos podia ser uma busca (associação livre) de dar conexão lógica ao que faltava ao sonho. Ou seja, um caminho pra identificar o valor que damos à nossas lembranças, e com isso desnudar censuras, medos, traumas, desejos reprimidos, recalques, etc. Enorme feito para entender nosso aparelho psíquico, e sobretudo elaborar sua ideia criadora e original sobre o inconsciente.  
                                                              Jackson Pollock

22 de junho de 2016

O desamparo que encoraja......


A violência tem gramática variada. Agride-se ao outro, e agredimos a nós. E importante para entendermos o medo como nosso afeto central. Nascemos “bebês desamparados”, com extrema dependência, primeiro dos pais, e depois dos outros.  O desamparo é dado biológico original, mas também dimensão própria do funcionamento psíquico. Estamos sempre, de alguma forma, desamparados e com medo! Também porque a ideia da nossa força versus a grandeza da situação de perigo cria fissuras, traumas, cujos diálogos se perenizarão nas nossas formas de agir e reagir.
Freud insistia na diferença entre medo e angústia. Angustia é uma expetativa corrosiva e, sobretudo, indeterminada. Não se sabe o quê de ruim ou quando acontecer. Medo é a reação diante de um perigo real ou imaginado, mas com objeto nominável. Damos nome ao que tememos!  Medo, esperança, primos-opostos de afeto, estão inscritos na temporalidade, e inspirarão encontrarmos figuras paternas e autoridades que nos ofereçam o acesso direto ao balcão universal dos reparos aos danos sofridos. Vem ai nossa sede pela Família, pelo  Estado, Polícia, por Messias, por líderes políticos e religiosos, etc. e etc. Mas o desamparo também pode instigar uma coragem afirmativa, na medida em que impede sua conversão em medo social e nos abre a acontecimentos novos.
Ou seja, o medo paralisa e negar experiências também é sofrer! 

15 de junho de 2016

O afeto das novas histórias.....



Não há almoço grátis, diz o senso comum. Paga-se o preço por se arriscar, ou não, diante de escolhas da vida. Sendo mais preciso, paga-se "pra ver", mas paga-se também "por não ver". E o segundo  costuma ser mais caro! O ponto é que acreditamos num fantasma: na perenidade de sermos o que somos,   com nossas regras definidas e integridade inviolável. Freud nos mostrou a importância de refletirmos sobre afetos que nos mobilizam para a adesão social. Especular como produzimos crenças, desejos e interesses que justificam determinados comportamentos, recusando uns e repetindo outros. Sua grande contribuição foi instaurar um dispositivo clínico de desativação de afetos que nossas fantasias produzem, a respeito de uma ordem psíquica sensível a bloqueios e sofrimentos. Brilhantemente, Freud explorou a ambiguidade de nossas fantasias sociais com um fantástico objetivo: permitir que outras histórias apareçam num lugar afetivo onde acreditávamos encontrar apenas as mesmas histórias. Enorme feito!