19 de janeiro de 2015

Por um mundo mais curioso!


Em geral, gosta-se de algo se há contato ou entendimento desse algo. Ou seja, é preciso estar no repertório, no universo de atenção e experimento.
Tá aí um dos problemas do nosso tempo, parece necessário elevar o repertório geral.
Do contrário, vamos continuar assistindo esse desprezo e ataque a a tudo (do que não se conhece).
E, sobretudo, esse domínio do "gosto médio", uma espécie de litígio com o que é mais esclarecedor.
Que o mundo seja mais curioso!

15 de janeiro de 2015

A vida como Ela é....

- Filho da puta!
Disse a morena da mesa à frente, de rara beleza e originais traços emanados do vasto mosaico étnico-brasileiro: olhos árabes, pele morena-alaranjada, cabelos longos, corpo curvilíneo harmonioso, rosto teatral, segurança gestual e sotaque de Minas.
Do palavrão veio um riso espontâneo e hipnótico. Dava atenção a dois amigos, supostos amigos, que faziam a corte rivalizando a atenção da belíssima mulher. Mais risos, mais gestos, mais frases, mais olhares que garantiam o domínio de toda atenção humana disponível ao redor.
- É ela. É ela. É ela. Tem que ser assim, exatamente como ela.
Minutos se seguiram na mesma tônica espectador: olhares, de lá pra assegurar toda atenção, de cá escancarando, ou tentando dizer, “é você”.
Ao fim, sentiu deliciosa impotência e um celebrado desgoverno do corpo que põe tudo em terceira ordem. Renovara uma perdida sensação, de fé inabalável, que tudo se dá num instante.

12 de janeiro de 2015

Livre-arbítrio, interpretação eis seu nome!


Uma das músicas que mais gosto do Caetano é Argonautas.
De lá arranca-se um genial verso “Navegar é preciso, viver não é preciso”, cujo significado sempre
me trouxe elevado ideal de vida dos navegantes que preferiam morrer a parar de navegar.
E, no uso da psicanálise, poderia se problematizar que o homem assume um desejo qualquer como uma necessidade inapelável, maior que a vida.
Enfim, mas consultando um erudito lusófono poderia, também, se entender que, na verdade,
o sentido seria que a navegação seria exata, e o preciso seria de “precisão”,  enquanto a
vida, inexata. 
Tal exemplo mostra boa metáfora na medida em que estamos a quase todo o tempo interpretando
os significados (como a língua) do que nos acontece. A vida é amplamente um entendimento (artístico, poético, simplório, complexo, racional, transcendente, etc.) que escolho utilizar e isso tem um impacto considerável como entendo e sinto o mundo.
Eis ai o fascinante livre-arbítrio!

8 de janeiro de 2015

O objeto amado ao alcance da mão.......

Escutei de uma amiga psicanalista que o grupo mais difícil de tratar são os viciados em droga.
É um tema complexo dado que, bem diferente da paixão humana, cuja pessoa amada exige algum esforço, a droga representa o objeto amado ao alcance da mão. E tal facilidade de desejo é muito difícil de lidar!
Inferi que grupos como Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos às vezes têm mais sucesso no tratamento porque, além de serem grupos de mútua-ajuda (ao saber que não estou sozinho nesse inferno já consigo alguma melhora)  há todo um receituário de provações que, no fundo, mantêm a relação de afeto com a droga e com o "objeto amado". Exemplo: tenho que admitir que sou um dependente eterno!
É curioso isso, a pessoa não para de beber. Ela "não bebe" todo dia, o que é um pouco diferente. 
Ou seja, o tema está ali, o objeto amado está ali, sendo "vigiado" a todo tempo, contando cada dia superado, de forma apaixonada e obsessiva.
Claro, é um tema muito sensível e de sofrimento a muitas famílias,  Mas lembro que há mais de 12 anos quando parei de fumar (e sim, eu era bem viciado) usei um gatilho certeiro que serviu de total apoio psicológico para meu êxito. 
Desviei meu foco de resistência não paro o cigarro, e sim pra "escravidão" que dele emanava.
Não queria mais depender de um cigarro para ir ao banheiro, para atender ao telefone, para escrever um texto, para depois do café e do sexo. Disse para mim que o problema não era o cigarro e sim seu aprisionamento, que passei a ter plena convicção que jamais o admitiria.
Enfim, foi com a ideia de que, no limite eu eventualmente poderia fumar, mas jamais voltaria à escravidão, que me desvencilhei do objeto amado e, sinceramente, o esqueci.

7 de janeiro de 2015

"Eu canto pra Deus proteger-te".......

Adoro histórias por trás das canções; entender as motivações, referências pessoais, sutilezas poéticas, etc., em letras de grandes músicas. Verão é a estação do Rio, e lembro minha estranheza infantil, e fascínio, sobretudo do ouvido virgem sob introdução vibrante da guitarra de Pepeu, com a canção “Menino do Rio”, feito por Caetano para Baby Consuelo. 
Num trecho ele fala “menino vadio” que é um golaço poético, já que mulheres não podem ser chamadas assim. Depois “eu canto pra Deus proteger-te” que além de se um baita encaixe poético à melodia, acabou sendo um trecho visionário dado o fim trágico de Petit, o “surfista dourado” que inspirou Caetano.
Carioca de muitas mulheres e de vida intensa, sofrera grave acidente que deixou parte do seu corpo paralisado. Não suportando ficar longe do mar e das mulheres, se suicidou aos 32 anos com uma faixa de judô.

Fotografia do Píer de Ipanema em 1971