22 de junho de 2016

O desamparo que encoraja......


A violência tem gramática variada. Agride-se ao outro, e agredimos a nós. E importante para entendermos o medo como nosso afeto central. Nascemos “bebês desamparados”, com extrema dependência, primeiro dos pais, e depois dos outros.  O desamparo é dado biológico original, mas também dimensão própria do funcionamento psíquico. Estamos sempre, de alguma forma, desamparados e com medo! Também porque a ideia da nossa força versus a grandeza da situação de perigo cria fissuras, traumas, cujos diálogos se perenizarão nas nossas formas de agir e reagir.
Freud insistia na diferença entre medo e angústia. Angustia é uma expetativa corrosiva e, sobretudo, indeterminada. Não se sabe o quê de ruim ou quando acontecer. Medo é a reação diante de um perigo real ou imaginado, mas com objeto nominável. Damos nome ao que tememos!  Medo, esperança, primos-opostos de afeto, estão inscritos na temporalidade, e inspirarão encontrarmos figuras paternas e autoridades que nos ofereçam o acesso direto ao balcão universal dos reparos aos danos sofridos. Vem ai nossa sede pela Família, pelo  Estado, Polícia, por Messias, por líderes políticos e religiosos, etc. e etc. Mas o desamparo também pode instigar uma coragem afirmativa, na medida em que impede sua conversão em medo social e nos abre a acontecimentos novos.
Ou seja, o medo paralisa e negar experiências também é sofrer! 

15 de junho de 2016

O afeto das novas histórias.....



Não há almoço grátis, diz o senso comum. Paga-se o preço por se arriscar, ou não, diante de escolhas da vida. Sendo mais preciso, paga-se "pra ver", mas paga-se também "por não ver". E o segundo  costuma ser mais caro! O ponto é que acreditamos num fantasma: na perenidade de sermos o que somos,   com nossas regras definidas e integridade inviolável. Freud nos mostrou a importância de refletirmos sobre afetos que nos mobilizam para a adesão social. Especular como produzimos crenças, desejos e interesses que justificam determinados comportamentos, recusando uns e repetindo outros. Sua grande contribuição foi instaurar um dispositivo clínico de desativação de afetos que nossas fantasias produzem, a respeito de uma ordem psíquica sensível a bloqueios e sofrimentos. Brilhantemente, Freud explorou a ambiguidade de nossas fantasias sociais com um fantástico objetivo: permitir que outras histórias apareçam num lugar afetivo onde acreditávamos encontrar apenas as mesmas histórias. Enorme feito!