28 de abril de 2017

Quando sofrimento e sucesso andam juntos.....

 
É um tipo de sofrimento bastante corrente aquele em que o sujeito se entrega incondicionalmente a uma imagem idealizada de si. Comum e que faz pensar, porque é uma forma de servidão voluntária (dívida simbólica) enfeitada, bonita e vistosa. Exatamente porque há sucesso e êxito social envolvidos. O sujeito é bem sucedido profissionalmente e economicamente, é inserido em uma "família ideal", em um projeto de amor, é belo e admirado, etc. E é justamente em nome dessa imagem (eu ideal) que ele se submete cruelmente a sacrifícios de toda ordem (investe contra si), e é preciso um esforço considerável  para se deslocar dessa posição. Isso porque requer ceder em alguns pontos que custam à sua imagem (fantasia/fantasma). Contam que alguns pacientes que chegavam à Clínica de Lacan, tendo o sofrimento como porta de entrada, estavam situados nessa posição. E, aos poucos, e com o avanço da análise, iam "perdendo" alguns atributos extremamente valorizados no contexto do social. E, obviamente, as pessoas cogitavam que a análise estava "piorando" o sujeito. Mas era o contrário.....

18 de abril de 2017

"13 reason why" - É preciso falar dos porquês.....



Assisti "13 reason why" no embalo de um suspense que te fisga e te leva compulsivamente ao desfecho.
No começo parece bobinho, com aquela atmosfera pasteurizada de Community Colleges americanas exageradamente explorada em filmes e séries, cujos estereótipos e sensos comuns implodem uma melhor elaboração ficcional. Mas logo a trama vai ganhando densidade e novos contornos, e o resultado final é muito interessante! Apenas duas coisas para dizer: li ali e aqui que a série deveria ser vista com cautela por abordar o suícidio juvenil, e o risco de instigar outros jovens. Penso radicalmente diferente! Aliás, sem fazer spoiler, a série trata justamente disso. Da "palavra aprisionada", de uma angústia radical (possível a todos!), do vazio e da sensação de "não-pertencimento" de uma jovem, fruto de um ambiente que destrói a espontaneidade e o desenvolvimento das narrativas individuais. Talvez seja esse o melhor ângulo do Bulling. De ser uma construção cultural do nosso tempo, subjacente a um estilo de vida alienado cujas opções são demasiadamente restritas, fartas apenas na aparência.  Freudianamente falando, da submissão coletiva a um superego interno tirânico e impiedoso, erguido a partir de identificações e ideias empobrecidos.     



6 de abril de 2017

É preciso o mundo desabar......

 
É muito comum sofrermos pelo o que não aconteceu. Como também, desconsideramos o que é parido no ato de sofrer. De uma certa maneira, há um momento em que a consciência precisa se angustiar. Com o propósito de redimensionar a experiência da vida. Um estágio que marque o desabamento de imagens de um mundo, e o erguimento de outro, que permita novas ações, desejos e movimentos. Eis o caráter ambivalente dos afetos. O desamparo que me angustia, pode ser o motor de uma reinvenção.
Freud vai nos lembrar que nossa primeira angústia fundante é a ausência da mãe. E dialogaremos com esse desamparo, revestido em novos fantasmas, por durante toda uma vida.
E assim seguiremos  nesse sujeito inseguro e neurótico que vai constituir substitutos ("outras mães"), que garantam nossa integridade narcísica, nossa demanda de amor e, sobretudo, nossa fantasia de sermos únicos e maravilhosos. Ou seja, seremos eternamente escravos a procura de um Senhor que nos diga o que fazer e, principalmente, que confirme que o fazemos é incrível, retornando ao estado de perfeição do "bebê majestade" que um dia fomos. Friso que é bem essa a posição neurótica que assumimos, de perguntar ao grande Outro (pessoas ou um outro simbolicamente constituído) "o que devo fazer" e depois cobrar ansiosamente a esse Outro a confirmação que o que eu fiz é sensacional.  Nesse contexto, uma travessia analítica útil cumpriria um percurso radical, de "desabar desse mundo".  De ter a angústia como porta de entrada, e na saída a liberdade de não estar submetida a um Outro imaginário que me escraviza!