30 de dezembro de 2013

O narcisismo invisível....


Não é necessário reflexão muito mirabolante para concluir que, da mesma forma que o belo (generosidade, amor, gratidão, etc.) mora em nosso interior, mora também o sinuoso (raiva, violência, inveja, etc).   
Da mesma forma, nesse "condomínio interno", co-habitam nossa dimensão de força, o impulso à vitalidade, e a fraqueza, a falta de ímpeto de empreender ações de toda ordem. 
A força é muito mais perigosa, envolve arriscar, ir à luta, se transformar, "ganhar ou perder". 
A fraqueza, e aqui eu a chamo de "não ação",  é muito mais cômoda, baixo risco e baixa exposição.
Curioso que nesse contexto existe um narcisismo invisível muito sutil, e pouco notado.
Explico: é extremamente sedutor nos enxergarmos com bons predicados, e bom potencial, pra uma série
de coisas. Mas são situações que nunca as praticamos, ou as realizamos.  
É narcisismo também o prazer de se imaginar-se, comodamente, sem agir para sermos de fato!   

27 de dezembro de 2013

As dores do nosso tempo....



Freud explorou com maestria a ideia de um "super ego" constituído a partir de um modelo social
repressivo: a vida familiar com pais punitivos e disciplinadores, as empresas com chefes truculentos e insensíveis, e a existência de um deus rigoroso e fiscalizador.
Naqueles tempos de dicotomia entre o "proibido e o permitido", os desejos e fantasias eram,
comumente, bloqueados antes de seu anúncio.
Ou seja, se não posso manifestar meu desejo por proibição interna, tenho consideráveis chances de desenvolver neuroses de toda ordem (histeria, obsessão, fobias, etc).
Esse processo sai de cena.  Desde dos anos 60 os modelos repressivos ficaram totalmente obsoletos.
Pois bem, o modelo atual é totalmente diferente. Nossa sociedade tem como mantra provocar e incitar o desejo (consumo) sem limites: "seja você mesmo", "aja da sua forma", "você pode tudo".
A dicotomia de agora não é mais entre o "proibido e o permitido", e sim entre "o possível e o impossível".
O ponto é que talvez esse modelo de "super incitação" seja mais brutal do que repressivo.
Explico: se no modelo repressivo a angústia gerava conflito (eu quero poder desejar!), no modelo de hoje todas as frustrações caem  nas costas do indivíduo, e não na vida social, no sistema.
E onde não há, aparentemente, nenhuma restrição, qualquer tipo de satisfação é uma traição.
Dito de outra forma: quando todas as possibilidades se abrem da mesma forma, qualquer escolha será sempre limitada e insatisfatória.
Ou seja, a sensação de fracasso se dá por não realizar, ou por não tentar, todos desejos possíveis.
Ai nesse contexto é a depressão a doença da moda. Porque na prática ela significa um "cansaço de si mesmo". Ou, extrapolando, a covardia psíquica de não desejar mais.

26 de dezembro de 2013

A banalidade do mal......













Enfim, consegui ver o filme sobre a Hannah Arendt!
O filme é forte e de grande densidade filosófica, já que explora a coragem da intelectual ao elaborar uma análise muito ousada e original dos subterrâneos do nazismo, tendo como pano de fundo o julgamento de Adolf Eichmann, um “mero” colaborador do regime.
Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina, o satanás. Mas o que ela viu foi a “banalidade do mal”:  um burocrata preocupado em cumprir as ordens, a partir de um pensamento técnico, descasado da ética, bastante comum em sistemas hierarquizados.
Ou seja, ela apontou que o perigo está justamente na violência sistemática que é exercida por pessoas banais, como Adolf Eichamann.
Hannah foi muito criticada por que esperavam dela – como judia – uma contundente análise vingativa na “defesa do seu povo”.
Mas a postulação de Hannah teve alcance muito maior. Em verdade, ela não estava desculpando os colaboradores do regime, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave, que é a naturalidade com a qual a violência é praticada por pessoas "normais".
Numa analogia muito despretensiosa, o mundo de hoje também tem sua "banalidade do mal".
Vide as tropas de choque do grande capital, e as burocracias do FMI, Bancos Centrais que ignoram a esperança de tanta gente. Vide os serviços das CIA´s da vida que invadem nossa privacidade a pretexto da "guerra ao terrorismo" mas na verdade o objetivo é a espionagem individual, diplomática e comercial.
Por isso digo sem pestanejar, Edward Snowden é o herói do nosso tempo!

14 de dezembro de 2013

A quase não-vida....

Que tempo vivemos...
Ter personalidade hoje não é "produtivo", é quase uma sentença anti-social.
A onda "up to date" é demonstrar leveza, flexibilidade a adaptações.
Resumindo: goste e participe conforme a maioria. Do contrário...
Curioso que ao invés de lapidar uma persona, algo tão importante para o fortalecimento interno.
Viramos o resumo efémero do que seria um estilo de vida normal:
A praia que frequentamos, o destino das férias, o livro que carregamos,
a caricatura de um aplicativo, o mega-show que iremos, a balada do momento, etc.
Todos nossos melhores predicados colorem fotos e frases de páginas de redes sociais!
E seguimos assim: cheios de esboços e instantes, mas talvez sem "sermos" de fato.
Viva a pós-modernidade!

11 de dezembro de 2013

Uma história real.....

Li outro livro de Philip Roth, o “Patrimônio – uma história real”.
Elogiável a coragem do relato autobiográfico sobre os anos finais de convivência com seu pai.
A tônica fortemente confessional do autor fez a  história me servir bastante, sobretudo pelo atual
quadro de saúde de meu pai, e algumas "epifanias" que bons livros possibilitam.
Fiquei pensando como nossas referências são fortes,  personalidades moldadas ao longo de uma
vida agora amplificam grandes diferenças, convergências e similaridades fortes.
É uma reflexão necessária que, quase sempre, passa à margem das nossas percepções 
ou pela pressa do dia-a-dia, ou pela cegueira de que "você é simplesmente você".
Um ponto comum que me surgiu é que ambos – eu, meu pai, e talvez meu avô, sempre apresentamos
uma saudável  - embora muita arriscada - “preguiça do  mundo”.
A costumeira segurança intelectual, quase presunção, e a auto-afirmação de nossa capacidade
vão cedendo a um grande cansaço desse “eterno mundo dos homens”.
É como se a vida se resumisse a uma boa macarronada, um copo de vinho, um carteado, e uma soneca.....

E tão somente isso!