6 de julho de 2017

A encrenca de se fixar.......




No excelente documentário "Encontros com Lacan", vários de seus pacientes relatam suas experiências lidando com o estilo totalmente original e subversivo do psicanlista francês que, dentre muitas de suas marcas,  começava as sessões com a pergunta "Che vuoi? (O que você quer?). Essa e outras intervenções tinham como objetivo situar o paciente em sua insuperável divisão. E, sobretudo, na "possibilidade" de fazer alguma com isso! Afinal, não somos UM, e não fazemos UM com o outro (a completude é uma idealização ingênua). E divididos porque nos desolcamos para atender determinações dessa identificação. Prosaicamente, é possível querer enfrentar essa questão? : "O que eu quero é o que eu quero, ou o que quero é o que acho que os outros querem (de mim) que eu queira". Obviamente nossas identidades nos dão noção de pertencimento, nos ancoram, e têm um importância organizadora na deifinição de um "IDEAL DO EU", cujos mandatos (as expectativas que outros têm e que nós temos de nós mesmos) servem como bússolas. Porém, se não tê-las (identidades) é devestador, ficar fixo numa única posição de obdiência a esses mandatos é encrenca das grandes (muitos dos sofrimentos derivam daí)!  Um dos pacientes usa um exemplo emblemático: "a análise com Lacan era como receber o aperto de suas duas mãos com o conflito de uma trasmitir afeto e a outra "me chacoalhar" para a responsabilidade com o que eu quero.  Outro, um seminarista religioso, dizia que a experiência com Lacan provocou-lhe uma cisão. Mas serviu para escolher ter uma família, e mesmo assim permancer com sua fé religiosa. Esse é o ponto, Lacan, por diversas vezes em sua obra fala da experiência analítica como um recurso fundamental para seu processo de elaboração, descoberta, invenção, nas malhas da divisão do sujeito.  E esse trajeto, por sua vez, não oferece garantias da realidade, ou seja, por debaixo da fala não há nada, a não ser o que pode ser criado. O que já é bastante coisa !

“Pelo efeito de fala, o sujeito se realiza sempre no Outro, mas ele aí já não persegue mais que uma metade de si mesmo. Ele só achará seu desejo sempre mais dividido, pulverizado, na destacável metonímia da fala. O efeito de linguagem está o tempo todo misturado com o fato, que é o fundo da experiência analítica, de que o sujeito só é sujeito por ser assujeitamento ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro” (Lacan, 1964, p. 178).