10 de agosto de 2017

Permissão para xingar.....



Sou apaixonado por futebol! Apaixonado pelo meu time, o Palmeiras. Sou xiita! Xingo, defendo, brigo, provoco, choro, vibro, enfim, vivo um manancial de emoções com isso. Em derrotas e vitórias! Aliás, ambas são valiosíssimas para o teatro da vida. Há quem diga que é bobagem. Perda de tempo. No meu caso é incurável! E levo a sério. Me identifico. Descobri que é um espaço de amor com meu pai, que me carregou pro estádio há mais de 30 anos pela primeira vez. Ele era rígido! De poucas palavras. Quase sempre secas, mas demasiadamente seguras. O futebol foi o melhor espaço que encontrei para amá-lo. Para segui-lo.  Para saber de sua origem, de sua gente. Sua forma de educar era dura, mas muito organizadora. Era fácil saber o que era permitido, e o que não era. Bastava um olhar de reprovação. Bastava um gesto de permissão. Poucas palavras, muito ensinamento! De sua forma, um imigrante italiano, um homem de seu tempo. Lembro o primeiro jogo que fomos juntos, um Palmeiras x Vasco no começo dos anos 80, num sábado à noite, com bastante gente. Quando se é pequeno tudo parece maior. A luz dos refletores explodindo no verde do gramado, a chegada barulhenta da torcida, o campo enorme, a atmosfera de "guerra". Aquilo era mágico demais para mim. Mas o que lembro, em especial, era a quantidade de "palavrões" que eram ditos com os lances da partida. Xingamentos fortes! Palavras sujas e pesadas, ditas a todo tempo. Muitas eu nunca tinha ouvido. A cada insatisfação do torcedor, era atirado a uma nova gramática. Aquilo me assustou. Mas me encantou mais! Era primeira vez que via um ambiente permissivo regido por outras regras. Não falávamos palavrões em casa. Aliás, o pouco que falávamos com ele era cheio de censura. Para agradá-lo. Para não aborrecê-lo!  Mas em meio à fúria da torcida, e uma profusão de palavrões fui, como sempre, procurar seu olhar orientador. Fora um olhar, dessa vez, permissivo. Como dissesse "Aqui isso pode!". Foi mágico. Percebia que havia uma vida muito mais interessante e plena fora de casa. Onde era possível xingar. Onde era possível amar...... 



Descomplicando complexos e gatos......



Uma das contribuições de Lacan foi aperfeiçoar o "Complexo de Édipo", a partir de uma sábia releitura de Freud.  Mas  é preciso sublinhar a palavra "complexo" e seus equívocos. Não é complexo de "complexado", e tampouco de "ser complicado".  É complexo como rede, um emaranhado articulado de informações relativas à constituição do sujeito que se inseriu na família,  na sociedade e na cultura. E esse "conteúdo", prévio e dinâmico, dialogará com os acontecimento da vida gerando consequências singulares e determinando o psiquismo de cada um. Relembremos  o estudo de Jung e Breuler. Faz-se uma indução associativa dizendo palavras para participantes da pesquisa. Pai, mãe, cachorro, casamento, sexo, mar, etc. A reação narrativa das pessoas pouco tem a ver com o significado objetivo dessas coisas. E sim com a relação  subjetiva do que representam esses objetos na história de cada um.  Exemplo:  duas irmãs presenciam a violência do Pai com um gatinho de estimação. Uma, muito traumatizada, passará a responder com sofrimento toda vez que o significante "gato" se apresentar, implícita ou explicitamente, em alguma situação. A outra que não registrou tão bem na consciência a cena, passará a odiar gatos, numa clara identificação com o pai. Ou seja, o acontecimento tem tanta importância para o psiquismo como o conteúdo prévio alojado no consciente ou inconsciente. Sonhar é um ótimo exemplo.  As situações do cotidiano se conectam com conteúdos que estão recalcados no inconsciente. Uma mulher com a sexualidade reprimida  luta contra a atração por um professor, à noite tem um sonho erótico com ele porque sonhar é um ato psíquico onde a censura cede. Não é um ato de fé, portanto, acreditar nessa "estrutura" que dita o psiquismo  - por isso a ideia de "dominar os pensamentos" é bastante ingênua.  É testemunho clínico. Voltando aos gatos, já que há dois gatos, um para uma e outro para outra . Enquanto ambas não voltarem de alguma maneira à cena reatualizando o significante 'gato" em suas experiências com o pai (que significa literalmente fazer alguma coisa sobre isso) , os sintomas poderão permanecer. Ou seja, é justamente aquilo que não queremos falar, que temos que falar!