15 de dezembro de 2016

"Nascemos no meio e morremos no meio"


Como diria Cabral de Melo Neto, "Nascemos no meio e morremos no meio".
Somos uma obra inacabada, e sempre há algo por vir. Quando nascemos já há um projeto anterior em curso, um nome que ganhamos, uma expectativa familiar que nos responsabiliza e etc. E quando partimos, é certo que nem tudo terá sido feito. Quando Freud fala em "complexo de Édipo" é uma ideia que não pode ser tratada no atacado. É falar de uma trama familiar que nos dá acesso ao simbólico, uma passagem para a cultura, valores que vão nos inscrever no mundo afetivo à luz de fantasias de nossa própria história. Ou seja, uma forma inescapável de nos situarmos no mundo ancorados numa legislação interna que gera adequação, mas também conflito. Porque põe a vida em marcha a partir de uma contradição insuperável. Somos extremamente narcisistas ao mesmo tempo precisamos do outro! E resta-nos lidar com isso.
O de aceitar que o preço que se paga para ver custa menos do que para não ver! 

28 de outubro de 2016

Lidando com os desejos...

Quando Freud fala sobre as pulsões propõe algo radical. O homem é um acidente da natureza, temos algo muito além dos instintos, podemos dar nome às coisas, o que torna nosso mundo muito mais interessante e perigoso. Ou seja, as sensações que derivam das possibilidades do corpo são registradas numa gramática própria. E o sentido do que se diz está num plano superior do que é verdadeiro ou falso. É mais valioso! Porque afirma a necessidade de figurar o mundo interno radicalmente singular de cada um. Como escutar de alguém que “a grama é vermelha", proposição ilógica e absurda, mas que acusa uma intenção afetiva de quem fala. 
Freud gostava de usar sistemas pra enquadrar o que inventava, utilizava termos hidráulicos, da economia (investimento libidinal, desinvestimento, bloqueio das pulsões), topologia (tópicas) e etc. Por exemplo, a ideia fundamental de recalque,  Verdrängung em alemão, algo como "força que bloqueia a pressão", transmite a ideia que intencionalmente (e de forma inconsciente) bloqueamos/censuramos alguma força interna, que poderia ser atendida nos termos de uma vontade psicológica. E essa operação de "bloqueio" gera seus derivados, que aparecem em sonhos, lapsos e, no pior (ou melhor) dos casos, em sintomas patológicos. Isso é interessante porque impõe a necessidade de desenvolvermos estratégias pra lidar com a energia disponível desse "aparelho humano". O de equilibrar um lado permissivo de atender parte das demandas internas (prazeres do corpo), renunciar outra parte (em nome da cultura, em prol de quem amamos, etc.) e sublimar outra, que significa renunciar o que não é possível, optando por uma realização substituta, essa bem mais trabalhosa (não posso "devorar" uma pizza, um corpo, mas "devoro" um livro). Capiche? 

11 de agosto de 2016

A importância dos sonhos....

Quem leu Freud facilmente se irrita (ou se diverte!) com o senso comum equivocado de sua obra.
O Livro “Interpretações dos Sonhos” é um caso típico, porque foi a pedra angular de sua obra,
e ainda hoje acham que é um guia pro significado de sonharmos com elefantes, dentes ou urubus.
Freud vasculhou toda literatura sobre os sonhos e encontrou enormes lacunas sobre a origem deles.
Percebeu que a alteridade radical entre o “estado de vigília”(despertado) e o “estado onírico” (sonhos) contribuía pra esquecermos os sonhos, dado que é muito difícil reter o que é inteligível, confuso e desordenado. E essa foi sua sacada genial!  De perceber que o ato posterior, o ato de tentar narrar os sonhos podia ser uma busca (associação livre) de dar conexão lógica ao que faltava ao sonho. Ou seja, um caminho pra identificar o valor que damos à nossas lembranças, e com isso desnudar censuras, medos, traumas, desejos reprimidos, recalques, etc. Enorme feito para entender nosso aparelho psíquico, e sobretudo elaborar sua ideia criadora e original sobre o inconsciente.  
                                                              Jackson Pollock

22 de junho de 2016

O desamparo que encoraja......


A violência tem gramática variada. Agride-se ao outro, e agredimos a nós. E importante para entendermos o medo como nosso afeto central. Nascemos “bebês desamparados”, com extrema dependência, primeiro dos pais, e depois dos outros.  O desamparo é dado biológico original, mas também dimensão própria do funcionamento psíquico. Estamos sempre, de alguma forma, desamparados e com medo! Também porque a ideia da nossa força versus a grandeza da situação de perigo cria fissuras, traumas, cujos diálogos se perenizarão nas nossas formas de agir e reagir.
Freud insistia na diferença entre medo e angústia. Angustia é uma expetativa corrosiva e, sobretudo, indeterminada. Não se sabe o quê de ruim ou quando acontecer. Medo é a reação diante de um perigo real ou imaginado, mas com objeto nominável. Damos nome ao que tememos!  Medo, esperança, primos-opostos de afeto, estão inscritos na temporalidade, e inspirarão encontrarmos figuras paternas e autoridades que nos ofereçam o acesso direto ao balcão universal dos reparos aos danos sofridos. Vem ai nossa sede pela Família, pelo  Estado, Polícia, por Messias, por líderes políticos e religiosos, etc. e etc. Mas o desamparo também pode instigar uma coragem afirmativa, na medida em que impede sua conversão em medo social e nos abre a acontecimentos novos.
Ou seja, o medo paralisa e negar experiências também é sofrer! 

15 de junho de 2016

O afeto das novas histórias.....



Não há almoço grátis, diz o senso comum. Paga-se o preço por se arriscar, ou não, diante de escolhas da vida. Sendo mais preciso, paga-se "pra ver", mas paga-se também "por não ver". E o segundo  costuma ser mais caro! O ponto é que acreditamos num fantasma: na perenidade de sermos o que somos,   com nossas regras definidas e integridade inviolável. Freud nos mostrou a importância de refletirmos sobre afetos que nos mobilizam para a adesão social. Especular como produzimos crenças, desejos e interesses que justificam determinados comportamentos, recusando uns e repetindo outros. Sua grande contribuição foi instaurar um dispositivo clínico de desativação de afetos que nossas fantasias produzem, a respeito de uma ordem psíquica sensível a bloqueios e sofrimentos. Brilhantemente, Freud explorou a ambiguidade de nossas fantasias sociais com um fantástico objetivo: permitir que outras histórias apareçam num lugar afetivo onde acreditávamos encontrar apenas as mesmas histórias. Enorme feito!

26 de fevereiro de 2016

Mulheres que roubam a alma dos homens.....


Tenho a seguinte a teoria que, como qualquer teoria, tem suas falhas.
Por tudo que observei na vida, a mulher cujo poder lhe permite roubar a alma dos homens conjuga três irresistíveis qualidades:
1) São indiscutivelmente belas e atraentes e, claro, a beleza está no olho de quem vê.
2) Demonstram os melhores predicados maternos: força e segurança.
3) O mais difícil: são misteriosas e impossuíveis. Colocam o homem numa excitante e corrosiva zona de desconforto no qual não há certeza de nada. Só uma: que ele sempre tem que a conquistar!
Não raro as mulheres, quando envolvidas, trocam (ou desconhecem) essa fantástica terceira qualidade pelo ciúme desmedido que as leva à lona.

"Ruth acatou a promessa, não tinha opção, faria o que fosse preciso pra não perdê-lo outra vez.
Ruth era posse de Ciro. E quanto mais se provava dele, mais difícil era pra Ciro, amar o que
lhe pertencia". - Trecho extraído do livro Fim, de Fernanda Torres.

Obs: Desnecessário (ou não!) dizer que isso não se aplica a relações estáveis de longo prazo.

14 de janeiro de 2016

O incrível medo de falar de si......


Falamos de nós o tempo todo! Contamos fatos corriqueiros do dia-a-dia, compartilhamos dramas e indecisões com familiares e amigos, nos descrevemos a estranhos, narramos "sucessos" e "fracassos" no vai e vem de eventos super dimensionados e nos apresentamos como "produtos" cultivando o ideal empresarial do nosso tempo.
Ao mesmo tempo que fazemos tudo isso (falamos muito!), não falamos nada! Temos enorme medo de contarmos "a história da nossa vida". Ou seja, de dizer a "verdade verdadeira" (medo, traumas, lapsos, contradições entre falar e agir, impulsos agressivos, saudades, marcas de afeto, sonhos repetitivos, acontecimentos impactantes, a alteridade de algozes e heróis que são nossos pais,  etc.).
Decididamente, essa grande "falação" do dia-a-dia é operar no campo da interação, é ajustar a linguagem ao universo relacional que estamos inseridos. Não é verdadeiramente falar de si! Porque é muito diferente da honestidade (redentora, dura e aguda!) de abrirmos sem receio a ebulição que nos assola, e como nos apresentamos afetivamente diante das questões da vida.
Mas é bom saber que falar de si (dessa forma!) é necessariamente mudar o afeto sobre si!