24 de julho de 2015

A nossa mais difícil travessia.....



Outro dia lembrei de um amigo de infância que me apavorava. Não raro ele chegava na escola com as costas marcadas após violentas surras que levava do pai. Era uma imagem tétrica pra mim, e totalmente dissociada do amor que eu encontrava em casa. Fato que me fazia sofrer bastante.
Óbvio que tal vida infernal o tornara uma criança muito agressiva e indisciplinada. Mas em raros momentos aparecia seu "lado bom", como quando me confessou, em prantos, que seu pai se referia sempre a ele como "um problema na sua vida".
Hoje é fácil entender. Como ele podia se apresentar ao mundo, então? Obediente ao pai!  Agia como um problema não só na vida do pai, mas um problema em qualquer lugar e em qualquer situação.
O ponto é que, como no exemplo, todos somos colocados "num lugar" pelo desejo do outro. E lá podemos ficar por anos, acumulando mágoas e conflitos internos. Nosso maior desafio, e as terapias da fala ajudam muito, é literalmente "desmontar" esse lugar que ocupamos fruto de uma narrativa mítica do "eu que se alienou" e ficou aprisionado.
A narrativa de si, a repetição da fala e os lapsos desse mito interno que vão aparecendo ajudam a colidir essa "estrutura bruta" fantasmática, desalojando-nos numa travessia "daquele lugar" para outro. De um lugar da angústia para, quem sabe, um lugar de surpreendente empolgação....  

20 de julho de 2015

Se eu sou eu porque você é você, nem eu sou eu e nem você é você....



Adoro essa reflexão Chassídica: "Se eu sou eu porque você é você, e se você é você porque eu sou eu, nem eu sou eu e nem você é você. Mas se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você, então eu sou eu e você é você e ai podemos conversar".
Desvendando a ideia acima: se eu sou eu porque você é você minha identidade só aparece na comparação. Fato que promove "não-diálogos" fruto dessa insegurança de identidade; já que para um diálogo de fato não importa se há discórdia, é apenas fundamental que se fale de um lugar de segurança, de crença, de visão
Freud nos ensinava que em nossos afetos primordiais o mal é percebido sempre fora da gente: fora da relação mãe/eu bebê, fora da minha família, bairro, cidade, religião, cor, país, etc.
Nesse contexto, é uma tarefa permanente e vigilante educar nossa interação não colocando o outro como uma ameaça, o que bloqueia encontros e diálogos de fato. Ou seja, é de se refletir o quanto perdemos colocando o outro como uma fronteira que nos demarca.
Tal característica é fácil notar quando repetimos com boa intenção, sem nos darmos conta, a necessidade de se "tolerar as diferenças" indicando um comportamento politicamente correto. Ora bolas, não se trata de tolerar (aguentar o outro!), e sim de aceitar o fato, de fato, que as diferenças são inerentes ao mundo e isso é o fantástico na vida.
Como também vale refletir que não é possível dialogar com qualquer pessoa sem, sobretudo, acolher sua fala, acolher o que se tem espontaneamente pra dizer, e o que provavelmente será estranho a nós.
Dificilmente melhoraremos nossa sociedade se não ultrapassarmos o "eu tenho razão" pra chegar numa escuta desarmada, dispositivo simples que evitaria grande parte de nossos conflitos internos e externos. Mas, como bem sabemos, fazer o simples sempre é mais complexo....