21 de dezembro de 2015

Sutil submissão social...


                                                      Abstracionismo em Kandinsky

A OMS fala que 20% da população mundial tem depressão. Não importa o lugar, seja na chuvosa Londres, no alegre Rio de Janeiro ou na fria Moscou.
Trata-se de uma doença de época, um lugar na economia mental da nossa cultura.
Vimos em Freud que a tensão “permitido x proibido” gerou no século passado um tipo de sofrimento diferente, do sujeito sublimar seus desejos pela rigidez da ordem social. Ou seja, “controlar” nossas pulsões e desejos produzia sofrimento.
Agora o sofrimento é bem diferente, ele se instaura não mais no proibido, mas nesse ideal “empresarial de si", de nos anunciarmos como produtos, da busca de maximização de intensidades com o mantra perigoso do "posso tudo, tenho que fazer tudo!".
Diria que é dai que fala a depressão, de um “cansaço de si”, da crueldade de um sistema sem limites, que se você fracassou nesse projeto a culpa é exclusivamente sua.
Faz pensar. A depressão talvez seja uma das formas mais astutas de submissão social!                                              

28 de outubro de 2015

Livre arbítrio, uma ideia ingênua....



Desconfio, e muito, da ideia de autonomia, que somos "gerentes eficientes" na escolha do que queremos e não queremos. O pressuposto é que somos atravessados por coisas fora da jurisdição da nossa sua consciência. Dito de outra forma, há uma série de afetos que nos colonizam, localizados na cultura do tempo em que vivemos. No mundo atual, como exemplo, há sublinhada essa necessidade de nos apresentarmos socialmente como "proprietários de bens e atributos" (ora somos performáticos, líderes, belos, empreendedores, ecléticos, flexíveis, malhados, etc). É o tempo da predicação excessiva do indivíduo exposto a mil papéis sociais.  E, sobretudo, com o lastro do medo do outro, que ameaça a segurança do que nos condicionamos a achar que deveríamos ser.
Diria que é uma recorte importante esse das identidades. Remete a refletir no que foi necessário acontecer para sermos reconhecidos como predicados e atributos (logo, mercadorias!), e o que tivemos que perder para isso. Diria que uma perda considerável, e o preço que pagamos, é que as relações sociais serviriam para "confirmar" os predicados e atributos que exibo socialmente, o que leva a um caminho de empobrecimento do ser.
Porque a relação social mais valiosa e efetiva não é a de confirmação, mas de desconstrução do indivíduo, no sentido de me obrigar a narrar diferente como eu narrava a mim mesmo. Indo fora de mim, dos meus interesses óbvios, dos desejos conhecidos e repetitivos, e no limite da da minha imagem atual, na medida em que me abro para algo além do que me reconheço.
Ou seja, criticar esses afetos que nos colonizam, o medo do outro como ameaça à minha identidade, e reconhecer o que me é involuntário são figuras da maior liberdade.
Ou seja, liberdade não é o livre arbítrio, é descobrir de fato quais são minhas necessidades legítimas!

14 de outubro de 2015

A mais forte das Leis......


Arriscaria dizer que os animais é que são seres racionais. Eles são muito mais eficientes ao usarem instintos de sobrevivência e preservação. Sabem o que fazer com os objetos à sua volta, e sobretudo sabem lidar com parceiros e inimigos. Nós, humanos, temos que aprender tudo. E, mesmo assim, fazemos crueldades impressionantes (sobretudo conosco) “impensadas” pelos animais. Esse contraste fica mais “digerível” se admitirmos que nossa história começa antes de nascermos. Todo desejo de parentes e pessoas próximas instaura uma narrativa inicial que terá importância em nossa constituição, localizando-nos num contexto cultural. Sublinho esta questão porque essa intervenção simbólica que ocorre antes mesmo de nascermos “cobrará um preço”.
É o que Lacan vai chama de “a Lei”.  Ou seja, algo se perde na passagem do “animal instintivo” para o “animal homem sujeito da linguagem”, perda que o que tornará um ser que “falta algo”. E, portanto, um sujeito dividido, marcado por uma descontinuidade, uma divisão impossível de ser desfeita e com um preço a ser pago: ter nascido desejado e tornar-se “desejante”.
Sublinho, também, que esse desejo do sujeito não corresponde à ideia de algo fora da consciência, de querer algo ou uma vontade ou um objeto específico.
O desejo inconsciente constitui-se num voto intransitivo: ‘eu desejo’, o sujeito queira ou não!
Exemplo, um menino no leito de morte do pai escuta da mãe a seguinte frase “agora você é o homem da família e vai cuidar da gente”. É a Lei. A força dessa frase poderá marcar o corpo do sujeito a ponto de todas as suas decisões em vida cumprirem, consciente ou inconscientemente, essa sentença.
Aí a importância da psicanálise, porque o “desvendar desse sujeito” o colocará diante de hipóteses, um ser mental em que é possível analisar suas intenções.
Como nos lembrou Lacan, há o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir.
É elaborando pensamentos, e não utilizando "medicamentos", que melhor percebemos à nossa volta!

4 de setembro de 2015

A dor: perda do inaudito, do invisível e do imaterial.


É difícil ser didático com alguns conceitos de Psicanálise, e gosto especialmente da complexidade
do Lacan que retorna à Freud e nos brinda com algo genial: é a linguagem que permite que nos
reconheçamos como sujeitos. Ou seja, está na linguagem o suporte de um “significante”
(uma ideia de si, por exemplo) que formula, a partir da interação com o outro, a imagem de si,
o lugar que ocupamos, uma localização na cultura, etc.
Nesse contexto, o sofrimento seria um prejuízo definido pelo fato de que o sujeito e o corpo estariam
privados de suas metas: deslocarem-se na fala e na ação. Ai vem a parte subversiva que pra mim
é fascinante,  a “dor da alma” seria o efeito da perda do inaudito, do invisível e do imaterial.
Ou seja, haveria um “real” além do que é dito, do que é visto e do que é materializado que bloqueado
de sua relação com o sujeito deflagraria toda ordem de sintomas.
Um exemplo pra clarificar: admitamos um sofrimento quando a imagem do corpo cessa de
ser “invisibilizada” pela fala que tem o poder de memória do“além da imagem”.
O sujeito, então, privado de sua relação com esse “invisível” vê-se exilado, restrito ao limite insuportável de sua imagem. Não parece óbvio quando notamos dramas corriqueiros do nosso tempo? Pessoas perturbadas com a imagem de um corpo gordo demais, num corpo pequeno demais, etc.?
Exiladas (bloqueadas!) do dualismo além da imagem?

24 de julho de 2015

A nossa mais difícil travessia.....



Outro dia lembrei de um amigo de infância que me apavorava. Não raro ele chegava na escola com as costas marcadas após violentas surras que levava do pai. Era uma imagem tétrica pra mim, e totalmente dissociada do amor que eu encontrava em casa. Fato que me fazia sofrer bastante.
Óbvio que tal vida infernal o tornara uma criança muito agressiva e indisciplinada. Mas em raros momentos aparecia seu "lado bom", como quando me confessou, em prantos, que seu pai se referia sempre a ele como "um problema na sua vida".
Hoje é fácil entender. Como ele podia se apresentar ao mundo, então? Obediente ao pai!  Agia como um problema não só na vida do pai, mas um problema em qualquer lugar e em qualquer situação.
O ponto é que, como no exemplo, todos somos colocados "num lugar" pelo desejo do outro. E lá podemos ficar por anos, acumulando mágoas e conflitos internos. Nosso maior desafio, e as terapias da fala ajudam muito, é literalmente "desmontar" esse lugar que ocupamos fruto de uma narrativa mítica do "eu que se alienou" e ficou aprisionado.
A narrativa de si, a repetição da fala e os lapsos desse mito interno que vão aparecendo ajudam a colidir essa "estrutura bruta" fantasmática, desalojando-nos numa travessia "daquele lugar" para outro. De um lugar da angústia para, quem sabe, um lugar de surpreendente empolgação....  

20 de julho de 2015

Se eu sou eu porque você é você, nem eu sou eu e nem você é você....



Adoro essa reflexão Chassídica: "Se eu sou eu porque você é você, e se você é você porque eu sou eu, nem eu sou eu e nem você é você. Mas se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você, então eu sou eu e você é você e ai podemos conversar".
Desvendando a ideia acima: se eu sou eu porque você é você minha identidade só aparece na comparação. Fato que promove "não-diálogos" fruto dessa insegurança de identidade; já que para um diálogo de fato não importa se há discórdia, é apenas fundamental que se fale de um lugar de segurança, de crença, de visão
Freud nos ensinava que em nossos afetos primordiais o mal é percebido sempre fora da gente: fora da relação mãe/eu bebê, fora da minha família, bairro, cidade, religião, cor, país, etc.
Nesse contexto, é uma tarefa permanente e vigilante educar nossa interação não colocando o outro como uma ameaça, o que bloqueia encontros e diálogos de fato. Ou seja, é de se refletir o quanto perdemos colocando o outro como uma fronteira que nos demarca.
Tal característica é fácil notar quando repetimos com boa intenção, sem nos darmos conta, a necessidade de se "tolerar as diferenças" indicando um comportamento politicamente correto. Ora bolas, não se trata de tolerar (aguentar o outro!), e sim de aceitar o fato, de fato, que as diferenças são inerentes ao mundo e isso é o fantástico na vida.
Como também vale refletir que não é possível dialogar com qualquer pessoa sem, sobretudo, acolher sua fala, acolher o que se tem espontaneamente pra dizer, e o que provavelmente será estranho a nós.
Dificilmente melhoraremos nossa sociedade se não ultrapassarmos o "eu tenho razão" pra chegar numa escuta desarmada, dispositivo simples que evitaria grande parte de nossos conflitos internos e externos. Mas, como bem sabemos, fazer o simples sempre é mais complexo....

24 de junho de 2015

Você S/A, o medo como afeto central da vida.

Obviedade dizer que a vida em sociedade é cheia de riscos; acidentes, desastres naturais, doenças, guerras, violências de qualquer espécie, etc. E me arriscaria dizer que nossa experiencia de risco muda muito pouco historicamente. Ou seja, a vida de hoje não é mais insegura do que a vida de ontem. O que muda, provavelmente, é nossa sensibilidade ao risco. Sobretudo se admitimos que o medo é o afeto central no modelo atual que vivemos, porque estamos fartamente inseridos num jogo duplo de incitar o desejo e de repercutir o medo -  lembramos o tempo todo que estamos numa situação de risco, contamos sempre as mesmas histórias assombrosas e trágicas, etc e etc.
Indagaria também o tipo de lógica psíquica que deriva desse modelo: o medo do fracasso.
Somos pedagogicamente orientados a nos comportarmos como uma empresa, a "Eu S/A".
Nossos ideias de conduta apontam para um empresariamento de si mesmo: nossas qualidades são vistas como "capital humano", nossas emoções como "inteligencia emocional", tudo sob uma forma-empresa de "investir" em nós mesmos e esperar seu devido "retorno", E cair nas ruínas se isso não acontecer!
Enfim,indagaria, se isso for verdade, se a principal função dessa grande "fantasia social" não seria limitar nossa capacidade de produzir afetos. De se mover, de transformar.
E, fundamentalmente, de permitir a troca desse pano musical de fundo......a renúncia!


29 de maio de 2015

O homem sem gravidade......


Saí “marcado” após a leitura do "Homem sem Gravidade", de Charles Melman.
Nunca tinha parado pra pensar no que ele propõe: a existência de uma “nova economia psíquica”,
advinda do modelo cultural o qual estamos inseridos: a vitória do mercado (pensamos
como consumidores), famílias desverticalizadas (perda considerável da ordem paterna), novas formas de comunicação, celebração do gozo coletivo (culto ao corpo, clubes de Hobbies, etc.), etc.
Pra Melman a mídia e a publicidade substituíram as fontes de sabedoria de outrora (grandes textos, tradição) e o resultado seria um indivíduo manipulável.  Não é mais possível hoje abrir uma revista, visitar um site, admirar heróis e personagens de nossa sociedade sem que eles estejam marcados pelo estado específico de uma exibição de gozo.  E isso implica deveres radicalmente novos, impossibilidades, dificuldades e, sobretudo, sofrimentos diferentes.
Isso porque há uma formidável liberdade, mas ela é estéril para o pensamento, porque o pensamento seria comandado por um ideal, por querer superar obstáculos, e como não os há, não sabemos o que há para pensar. A síntese dessa nova economia psíquica seria um sujeito que não é mais dividido, que não é mais preso a uma dívida simbólica e abastecido de referências. Esse novo sujeito estaria "desalojado" e sempre necessitando da confirmação externa para o próxima passo. 
Ou seja, viria ai um mundo com menos neuróticos (o recalque/ bloqueios deixam de existir) e mais depressivos (eu posso e sou livre para tudo mas não dou conta disso).
Esperar pra ver!


10 de abril de 2015

O que a palavra não alcança.....


Ando obcecado nas leituras de Freud e Lacan! Pus tudo em terceiro plano e, fora isso, nada me interessa muito. Acho que o mais me fascina na Psicanálise é esse recado que há alguma que não se compreende. E esse paradoxo é muito interessante porque um método de “cura pela palavra” admite também que há alguma coisa que o sujeito não sabe dizer. E essa coisa, que ele não sabe dizer, o fará ter chance de reinventar e, sobretudo, se responsabilizar. E não haverá bispo nenhum pro qual ele poderá reclamar! Não é absolutamente libertador, instigante e subversivo?

8 de abril de 2015

O pensamento está no dedão do pé......



Freud dizia que a agressividade é um afeto primordial, forjado na busca de segurança diante do "grande outro" (o mundo externo). Nossa ideia de mal é germinada dai; está fora de nós, fora da família, fora do vilarejo, etc. Com os processos de incursão social e cultural essas ameaças são racionalizadas, contornadas, mas esse afeto primordial sempre é retomado, e tem chande de aparecer nos termos da intolerância como as que tristemente assistimos no passado e hoje. O ponto é, a agressividade nunca desaparece (aliás, se desaparecesse levaria o "amor" junto) , mas poderia ser "manuseada" para bons propósitos e, sobretudo, obedecendo padrões essenciais de convivência.  
Da mesma forma, se a racionalização serve para compreender o mundo e (con) formar o indivíduo às possibilidades, ela pode inibir e "imobilizar" o sujeito parido numa gestão de risco ultra defensiva.
Lacan certo dia brincou com essa ideia numa conferência no EUA dizendo que o pensamento se dava no "dedão do pé". Boa metáfora para dizer que o pensamento deve afetar o corpo! Deve mover o indivíduo, e não servir de escudo para excessiva aversão ao risco (falsa sensação de segurança na medida em que pagarei à frente por não reconhecer desejos) e a narcisismos invisíveis de toda ordem
(eu posso mas não faço!).

31 de março de 2015

Lembranças da Itália....


“Enquanto pessoas e teorias brigam, há a vida real”. Não lembro onde li essa frase. Ela me ocorreu em meio às últimas páginas da biografia do Lacan, lidas num café, momento esse sempre arraigado de luto: fim do livro, fim da relação com o objeto-livro, fim da biografia que narra o fim da vida do biografado, simplesmente o fim.
Pensei em perdas familiares, no Brasil e na Itália. E, naquele instante vagaroso da contemplação do fim, pensei também no momento fúnebre do Brasil. Aliás, do mundo, desse Zeitgeist de “acinzamento” cultural que padecemos hoje.
Pensei, sobretudo, numa perda em especial: um ente querido chamado Giovanni, um Ítalo-Toscano de raríssima doçura, o maior anfitrião do mundo, que fora casado com a prima de meu pai e deu nome a meu sobrinho, numa bela e justa homenagem.
Nós, do lado Brasil da família, sempre desembarcamos em sua aconchegante casa na Itália.
Eram dias de alegríssima convivência em que tudo parecia perfeito e harmonioso. Os jantares, “mangia che te fa bene”, sempre sublimes e fartos de conversas calorosas e alegres, tal qual num filme do Fellini.
Eis que recordo que um dia, o grande Giovanni, para provocar meu lado político à esquerda trouxe-me sua medalha de estimação com a cara do Benito Mussolini, sucedido de uma história engraçada: contava-me que o melhor método para conter os “bagunceiros”, nos áureos tempos do ditador, era força-los a tomar purgante e aprenderem a lição que a “ordem” deveria prevalecer na cidade. O que me fez rir à beça, é claro.
Enfim, abomino figuras políticas como o Mussolini, o que obviamente pouco importa. Ele vivera a guerra e toda a divisão política de uma democracia velha como a Itália e construíra uma narrativa pessoal daqueles sombrios tempos. O ponto é que eu jamais conseguiria capitular sua posição política a ponto de arranhar uma vírgula na pessoa fantástica e doce que conheci, e que sempre pensava nos outros no primeiro plano. Acho uma reflexão importante em meio a esse mundo “beligerante” que vivemos hoje, de tolerância zero, no qual prevalece o “sujeito da fala”, o “sujeito do discurso” e que se desdobra na ânsia de aniquilar oponentes e destruir biografias.
O fato é que nesse insosso e intragável "caldo cultural" esquecemos a vida real em si, que deveria se sustentar no respeito a diferenças, mas fundamentalmente provada no exercício de uma vida fraternal e solidária.
Parece que o tão simples já seria o bastante!

27 de março de 2015

A morte em conta-gotas..(ou um deus chamado impacto).



Lemos em Balzac a vida do jovem Raphaël de Valentin, personagem fracassado na vida e no amor, a beira do suicídio, que se salva recebendo de um velho dono de antiquário a milagrosa pele de Onagro, que lhe confere poderes especiais e satisfazem todos seus desejos.
Porém, há um preço a se pagar: a cada desejo atendido a vida do dono é encurtada!
Prefiro pensar a inversão dessa ideia-síntese do conto Balzaquiano: "querer nos queima e poder nos destrói". Temos costume de pensar a morte como um ponto final, o abismo da  inexistência. Aliás, temos como dogma não pensa-la, tamanho nosso pavor em parte explicado pelo estúpido culto à juventude tão presente nas sociedades de consumo. Mas poderíamos considerar a morte como um evento diário, como células que obrigatoriamente desaparecem pra serem renovadas, análogas às pequenas mortes do dia-a-dia.
Em verdade nossa  morte reside no cotidiano, no aconchego de uma série de decisões renunciadas, desejos adiados, na fuga de novos amores, novos desafios, mudanças profissionais, geográficas, da adesão a novos sistemas de pensamento, etc. A morte reside numa implacável gestão de risco, cujo melhor investimento é nada fazer, é não tomar nenhuma ação, já que nada resulta e não há impacto no que não é feito - há apenas uma falsa sensação de segurança.
Quase sempre os merecimentos da vida estão disponíveis, logo ali. Mas o sistema auto-defensivo (nossa burocracia interna) estabelece uma idolatra à aversão a risco que impõe uma cruel sabotagem, cujo resultado geralmente é uma não-vida. Ou, dito de outra forma, a morte em conta-gotas. Ou em muitas gotas....

11 de março de 2015

As feridas narcísicas e o "Eu é um outro"......


Há três grandes feridas narcísicas na história do homem : a) o Heliocentrismo de Copérnico que desmonta a ideia que a Terra é o centro do mundo; b) a seleção natural de Darwin que esclarece que vivemos sob as mesmas leis das espécies da natureza e portanto não somos “animais superiores”;
e c) o Freudismo que aponta que a conduta humana não é toda consciente. O “inconsciente pensa” e talvez não nos conhecemos tanto assim.
Nessa linha, diria que há uma quarta ferida que é nossa ideia de “Eu”, essa ideia de uma individualidade como redoma num contexto inocente e pretensioso de autonomia de escolhas e atos.
Gosto das palavras do poeta francês Arthur Rimbaud "Eu é um outro", que  pressupõe que a noção "do Eu” vem dos processos de socialização, identidades culturais assimiladas e da projeção de esquemas mentais no mundo.
Nesse sentido, o “Eu” percebido derivaria da imagem do outro, e a sentença que "o desejo do homem é o desejo do outro" escancararia a articulação de minha (con)formação ao mundo social.  Portanto, somente a partir de um processo de crítica desse “eu alienado”, desse “Eu é um outro” que faço escutar  no interior do "si mesmo" (que não é esse Eu), uma certa essência reprimida de mim:
demandas e desejos, às vezes não nomeáveis, e etc, etc e etc.  
Por luz na discordância entre o Eu e esse "si mesmo" é um caminho esclarecedor e o único que permite tratar das cicatrizes, na medida em que toda sintomatologia negativa moderna (ansiedade, fobias. depressão, neuroses, pânico, etc) aparecerá como déficit de reconhecimento.

4 de março de 2015

Ansiedade, um déficit de vida.....


Um dos traços marcantes do nosso tempo é a ferocidade do tempo; temos a sensação que tudo passa velozmente num fluxo automático e efêmero. Seja pela abundância tecnológica que nos serve, mas que também nos impõe irreflexão, seja pelo excesso do que fazer, nem mesmo o tédio parece ter chance de existir em tempos atuais.
Suponho que a decorrência desse processo seja a forma como registramos os momentos.
Como ex-fumante gosto de usar a metáfora do cigarro. Existem os "bons cigarros", aqueles raros e ceivados de contemplação, e quase todos os outros, automáticos, imemoriáveis, úteis apenas pra evitar o desprazer de ficar sem o cigarro. É dessa forma que tratamos os eventos da vida!
Toda a ansiedade liberada desse modelo;  o anseio por tudo, a super incitação desumana frente a toda uma ordem de possibilidades e de demandas; sucesso profissional, afetivo, familiar, físico, lazer, etc, acarreta algo muito pernicioso no campo dos afetos: a dificuldades de registrar os momentos. E se você não grava em sua narrativa interna os momentos da vida, se não consegue nomeá-los, datá-los, etc; há algo inexorável em curso: um déficit de vida!

11 de fevereiro de 2015

Sobre pessoas explosivas.....

Conheço de perto discussões acaloradas. Sou filho de italianos, vi inúmeras cenas que todos ao mesmo tempo falavam alto, gritavam palavrões maravilhosos, salteavam veias do pescoço obedientes a uma ópera-bufa cujos personagens com seus rostos vermelhos, e olhos vidrados, buscavam em vão o convencimento dos outros e deles mesmos. É cultura!
Mas não saberia enquadrar tal elenco nas fileiras de personalidades explosivas. Há os que produzem conhecimento na tensão e se integram socialmente com comportamentos exagerados, mas que mesmo no ápice das encenações sabem respeitar determinados limites importantes no convívio.
Diferentes dos sem controle, pessoas que se manifestam destilando raiva e mágoas enterradas.
Normalmente esses últimos se arrependem, e hoje com a ajuda da tecnologia há todo um acervo de e-mails, mensagens e whats-up preenchidos sem a menor triagem do que se fala, e de si mesmo.
Um bom editor de si mesmo sabe guardar e aguardar. Sabe reescrever e, fundamentalmente, sabe diferenciar o que vem do estômago e do coração!


Cena do filme “C'eravamo tanto amati” (Nós que Nos Amávamos Tanto) de Ettore Scola 

19 de janeiro de 2015

Por um mundo mais curioso!


Em geral, gosta-se de algo se há contato ou entendimento desse algo. Ou seja, é preciso estar no repertório, no universo de atenção e experimento.
Tá aí um dos problemas do nosso tempo, parece necessário elevar o repertório geral.
Do contrário, vamos continuar assistindo esse desprezo e ataque a a tudo (do que não se conhece).
E, sobretudo, esse domínio do "gosto médio", uma espécie de litígio com o que é mais esclarecedor.
Que o mundo seja mais curioso!

15 de janeiro de 2015

A vida como Ela é....

- Filho da puta!
Disse a morena da mesa à frente, de rara beleza e originais traços emanados do vasto mosaico étnico-brasileiro: olhos árabes, pele morena-alaranjada, cabelos longos, corpo curvilíneo harmonioso, rosto teatral, segurança gestual e sotaque de Minas.
Do palavrão veio um riso espontâneo e hipnótico. Dava atenção a dois amigos, supostos amigos, que faziam a corte rivalizando a atenção da belíssima mulher. Mais risos, mais gestos, mais frases, mais olhares que garantiam o domínio de toda atenção humana disponível ao redor.
- É ela. É ela. É ela. Tem que ser assim, exatamente como ela.
Minutos se seguiram na mesma tônica espectador: olhares, de lá pra assegurar toda atenção, de cá escancarando, ou tentando dizer, “é você”.
Ao fim, sentiu deliciosa impotência e um celebrado desgoverno do corpo que põe tudo em terceira ordem. Renovara uma perdida sensação, de fé inabalável, que tudo se dá num instante.

12 de janeiro de 2015

Livre-arbítrio, interpretação eis seu nome!


Uma das músicas que mais gosto do Caetano é Argonautas.
De lá arranca-se um genial verso “Navegar é preciso, viver não é preciso”, cujo significado sempre
me trouxe elevado ideal de vida dos navegantes que preferiam morrer a parar de navegar.
E, no uso da psicanálise, poderia se problematizar que o homem assume um desejo qualquer como uma necessidade inapelável, maior que a vida.
Enfim, mas consultando um erudito lusófono poderia, também, se entender que, na verdade,
o sentido seria que a navegação seria exata, e o preciso seria de “precisão”,  enquanto a
vida, inexata. 
Tal exemplo mostra boa metáfora na medida em que estamos a quase todo o tempo interpretando
os significados (como a língua) do que nos acontece. A vida é amplamente um entendimento (artístico, poético, simplório, complexo, racional, transcendente, etc.) que escolho utilizar e isso tem um impacto considerável como entendo e sinto o mundo.
Eis ai o fascinante livre-arbítrio!

8 de janeiro de 2015

O objeto amado ao alcance da mão.......

Escutei de uma amiga psicanalista que o grupo mais difícil de tratar são os viciados em droga.
É um tema complexo dado que, bem diferente da paixão humana, cuja pessoa amada exige algum esforço, a droga representa o objeto amado ao alcance da mão. E tal facilidade de desejo é muito difícil de lidar!
Inferi que grupos como Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos às vezes têm mais sucesso no tratamento porque, além de serem grupos de mútua-ajuda (ao saber que não estou sozinho nesse inferno já consigo alguma melhora)  há todo um receituário de provações que, no fundo, mantêm a relação de afeto com a droga e com o "objeto amado". Exemplo: tenho que admitir que sou um dependente eterno!
É curioso isso, a pessoa não para de beber. Ela "não bebe" todo dia, o que é um pouco diferente. 
Ou seja, o tema está ali, o objeto amado está ali, sendo "vigiado" a todo tempo, contando cada dia superado, de forma apaixonada e obsessiva.
Claro, é um tema muito sensível e de sofrimento a muitas famílias,  Mas lembro que há mais de 12 anos quando parei de fumar (e sim, eu era bem viciado) usei um gatilho certeiro que serviu de total apoio psicológico para meu êxito. 
Desviei meu foco de resistência não paro o cigarro, e sim pra "escravidão" que dele emanava.
Não queria mais depender de um cigarro para ir ao banheiro, para atender ao telefone, para escrever um texto, para depois do café e do sexo. Disse para mim que o problema não era o cigarro e sim seu aprisionamento, que passei a ter plena convicção que jamais o admitiria.
Enfim, foi com a ideia de que, no limite eu eventualmente poderia fumar, mas jamais voltaria à escravidão, que me desvencilhei do objeto amado e, sinceramente, o esqueci.

7 de janeiro de 2015

"Eu canto pra Deus proteger-te".......

Adoro histórias por trás das canções; entender as motivações, referências pessoais, sutilezas poéticas, etc., em letras de grandes músicas. Verão é a estação do Rio, e lembro minha estranheza infantil, e fascínio, sobretudo do ouvido virgem sob introdução vibrante da guitarra de Pepeu, com a canção “Menino do Rio”, feito por Caetano para Baby Consuelo. 
Num trecho ele fala “menino vadio” que é um golaço poético, já que mulheres não podem ser chamadas assim. Depois “eu canto pra Deus proteger-te” que além de se um baita encaixe poético à melodia, acabou sendo um trecho visionário dado o fim trágico de Petit, o “surfista dourado” que inspirou Caetano.
Carioca de muitas mulheres e de vida intensa, sofrera grave acidente que deixou parte do seu corpo paralisado. Não suportando ficar longe do mar e das mulheres, se suicidou aos 32 anos com uma faixa de judô.

Fotografia do Píer de Ipanema em 1971