27 de novembro de 2014

Um homem pra chamar de seu....



Uma amiga psicóloga me contava que 90% de sua clínica era escutar, das mulheres, a dificuldade de constituir vínculos afetivos, e dos homens, a incerteza diante da “prisão do casamento”. Brinquei sadicamente que no caso dos homens era fácil explicar. O casamento é o exemplo mais Freudiano de sublimação: "deserotização", mudança de objeto, mudança de fins, o peso da instituição familiar, a fidelidade como mantra, etc.
Novas aventuras, diversões e sexo "desabotoado" parecem significar além do ideal de liberdade, uma forma de ruptura à norma rígida dos desejos. E, obviamente, o risco de significar uma baita solidão ali na frente. Sinceramente não sei se isso é questão de gênero. E se for, estamos no curso de uma “masculinização” das mulheres, porque são claras demandas femininas também. 
Onde vejo distinção: parece ser uma demanda de identidade mais da mulher preferir a segurança afetiva versus liberdade e insegurança. 
É o caso de refletir se prevalece "Tenho meu homem, logo existo" em relação à "Tenho minha mulher, logo existo"....

25 de novembro de 2014

As grandes decisões da vida....


Freud recebeu uma vez uma carta de um jovem italiano aflito buscando ajuda para encruzilhada de seu destino: a) mudar para a Alemanha e fazer carreira em Química. b) ficar em sua pequena cidade, casar com sua noiva, constituir família, residir perto dos familiares, etc.
O conselho de Freud serve bastante, tenho certeza. Disse que para as escolhas triviais do cotidiano (o que comer no jantar, o destino das férias do fim de ano, a escolha da escola dos filhos, etc) o melhor é ponderarmos dentro critérios objetivos e subjetivos e fazer surgir a melhor decisão.  
Agora, para escolhas maiores, transformadoras, divisoras-de-água de vida, temos que escutar fundamentalmente nosso instinto e nosso inconsciente. Porque a resposta já existe, e está ali.
Só que infelizmente desejos muito mais legítimos (e, ousaria, lógicos), quase sempre são "aprisionados" pela nossa "ideia de eu".

19 de novembro de 2014

O grande conflito de todos......


Pra mim o grande conflito na vida psíquica de qualquer sujeito é o seguinte: sacar que nossos atos, quase sempre persistentes, contrastam com o que acreditamos querer e desejar. 
Ou seja, perceber a tensão inteligível entre o que sabemos de nós e as escolhas que fazemos, que se opõem a essa consciência de nós.  
Admitindo a magnitude desse conflito, há dois caminhos: creditá-la a um “lado primitivo” que às vezes nos domina, alheio às nossas  reais vontades, ou buscar acolher compreensivamente esse “outro eu”e a lógica por trás do que fazemos.
O segundo caminho é muito mais árduo, mas bem mais esclarecedor!

14 de novembro de 2014

A confusão do mundo atual....

Um traço inequívoco da modernidade é a diminuição do papel das tradições. Ou seja, se antes o lugar, a classe e o ambiente social os quais eu pertencia orientavam minhas ações, no mundo moderno esse pilar é totalmente desestabilizado. Consequência? Aumento brutal da responsabilidade do sujeito diante de suas escolhas, a reboque de uma noção de pertencimento aflita e frágil . 
Curioso que tal fenômeno cria um efeito no qual estamos permanentemente carentes e em busca de elementos que orientem nossas ações. Isso explica em parte a ansiedade coletiva, e a sede por parâmetros que justificam os atos de antes e depois.
Nesse ponto, também curioso, operam no mesmo campo as religiões, os livros de auto-ajuda, a psicanálise, os sistemas de especialização profissional, etc. Mais ou menos sofisticados, tais sistemas servem para legitimar e monitorar o que fazemos.
Exemplo, uma jovem de qualquer cidade do mundo pode ir à banca de jornal comprar a revista da semana que lhe dê dicas de como escolher o namorado perfeito (auto-ajuda).  Um adulto belo fisicamente pode trocar sua esposa por uma jovem bem mais bela (excessiva importância do físico). Um advogado que defende grandes empresas porque o salário é melhor (especialização), etc. 
Reflexibilidade é o nome do jogo: penso, ajo, monitoro e justifico minhas ações. Penso, ajo, monitoro e justifico minhas ações!
E a moral da história? São exatamente os parâmetros que utilizo, que escolho, que podem trazer à tona, ou não, valores mais edificantes no interior da nossa vida psíquica e emocional.

13 de novembro de 2014

Um colecionador de pessoas.....



David Bowie é um artista que sempre me impressionou.
No excelente documentário "Five Years" ele faz um curioso auto-retrato que nos serve a reflexões além-das-artes: "eu sou um colecionador de pessoas". Tal posicionamento estético explica seu lado camaleão; a necessidade violenta de se reinventar, a gula por novas experiências, a liberdade de emergir novas personas, o destemor diante da rejeição do público, etc. Mas a frase também é boa provocação à experiência real - como dialogamos com nossos desejos no campo das relações humanos, dos afetos, do que queremos alcançar.
É sempre tentador sermos excludentes em nossas análises; "dependência ou autonomia"; "apego ou liberdade", "partir ou ficar", "abandonar ou encontrar", "sair ou voltar.", e isso está nos modelos que nos servem à interpretação, quase sempre comparações que tem como contrapartida a "maravilha da vida dos outros", seguramente imprecisas. Em psicanálise, o grande avanço é a travessia, sair de uma posição a outra, pois o atravessamento do fantasma (nossa fantasia interna) permite que reinunciemos ao desejo de submissão ao gozo do Outro (o grande outro!).
E é exatamente esse caminho que não abandona nossa "obra de autoria", a tarefa bem mais difícil, mas bem mais edificante, de acomodarmos nossas legítimas aspirações diante das possibilidades do mundo. Nesse contexto, e paradoxalmente, "colecionar" possa ser um meio muito mais original e corajoso do que reproduzir o óbvio.