31 de março de 2015

Lembranças da Itália....


“Enquanto pessoas e teorias brigam, há a vida real”. Não lembro onde li essa frase. Ela me ocorreu em meio às últimas páginas da biografia do Lacan, lidas num café, momento esse sempre arraigado de luto: fim do livro, fim da relação com o objeto-livro, fim da biografia que narra o fim da vida do biografado, simplesmente o fim.
Pensei em perdas familiares, no Brasil e na Itália. E, naquele instante vagaroso da contemplação do fim, pensei também no momento fúnebre do Brasil. Aliás, do mundo, desse Zeitgeist de “acinzamento” cultural que padecemos hoje.
Pensei, sobretudo, numa perda em especial: um ente querido chamado Giovanni, um Ítalo-Toscano de raríssima doçura, o maior anfitrião do mundo, que fora casado com a prima de meu pai e deu nome a meu sobrinho, numa bela e justa homenagem.
Nós, do lado Brasil da família, sempre desembarcamos em sua aconchegante casa na Itália.
Eram dias de alegríssima convivência em que tudo parecia perfeito e harmonioso. Os jantares, “mangia che te fa bene”, sempre sublimes e fartos de conversas calorosas e alegres, tal qual num filme do Fellini.
Eis que recordo que um dia, o grande Giovanni, para provocar meu lado político à esquerda trouxe-me sua medalha de estimação com a cara do Benito Mussolini, sucedido de uma história engraçada: contava-me que o melhor método para conter os “bagunceiros”, nos áureos tempos do ditador, era força-los a tomar purgante e aprenderem a lição que a “ordem” deveria prevalecer na cidade. O que me fez rir à beça, é claro.
Enfim, abomino figuras políticas como o Mussolini, o que obviamente pouco importa. Ele vivera a guerra e toda a divisão política de uma democracia velha como a Itália e construíra uma narrativa pessoal daqueles sombrios tempos. O ponto é que eu jamais conseguiria capitular sua posição política a ponto de arranhar uma vírgula na pessoa fantástica e doce que conheci, e que sempre pensava nos outros no primeiro plano. Acho uma reflexão importante em meio a esse mundo “beligerante” que vivemos hoje, de tolerância zero, no qual prevalece o “sujeito da fala”, o “sujeito do discurso” e que se desdobra na ânsia de aniquilar oponentes e destruir biografias.
O fato é que nesse insosso e intragável "caldo cultural" esquecemos a vida real em si, que deveria se sustentar no respeito a diferenças, mas fundamentalmente provada no exercício de uma vida fraternal e solidária.
Parece que o tão simples já seria o bastante!

27 de março de 2015

A morte em conta-gotas..(ou um deus chamado impacto).



Lemos em Balzac a vida do jovem Raphaël de Valentin, personagem fracassado na vida e no amor, a beira do suicídio, que se salva recebendo de um velho dono de antiquário a milagrosa pele de Onagro, que lhe confere poderes especiais e satisfazem todos seus desejos.
Porém, há um preço a se pagar: a cada desejo atendido a vida do dono é encurtada!
Prefiro pensar a inversão dessa ideia-síntese do conto Balzaquiano: "querer nos queima e poder nos destrói". Temos costume de pensar a morte como um ponto final, o abismo da  inexistência. Aliás, temos como dogma não pensa-la, tamanho nosso pavor em parte explicado pelo estúpido culto à juventude tão presente nas sociedades de consumo. Mas poderíamos considerar a morte como um evento diário, como células que obrigatoriamente desaparecem pra serem renovadas, análogas às pequenas mortes do dia-a-dia.
Em verdade nossa  morte reside no cotidiano, no aconchego de uma série de decisões renunciadas, desejos adiados, na fuga de novos amores, novos desafios, mudanças profissionais, geográficas, da adesão a novos sistemas de pensamento, etc. A morte reside numa implacável gestão de risco, cujo melhor investimento é nada fazer, é não tomar nenhuma ação, já que nada resulta e não há impacto no que não é feito - há apenas uma falsa sensação de segurança.
Quase sempre os merecimentos da vida estão disponíveis, logo ali. Mas o sistema auto-defensivo (nossa burocracia interna) estabelece uma idolatra à aversão a risco que impõe uma cruel sabotagem, cujo resultado geralmente é uma não-vida. Ou, dito de outra forma, a morte em conta-gotas. Ou em muitas gotas....

11 de março de 2015

As feridas narcísicas e o "Eu é um outro"......


Há três grandes feridas narcísicas na história do homem : a) o Heliocentrismo de Copérnico que desmonta a ideia que a Terra é o centro do mundo; b) a seleção natural de Darwin que esclarece que vivemos sob as mesmas leis das espécies da natureza e portanto não somos “animais superiores”;
e c) o Freudismo que aponta que a conduta humana não é toda consciente. O “inconsciente pensa” e talvez não nos conhecemos tanto assim.
Nessa linha, diria que há uma quarta ferida que é nossa ideia de “Eu”, essa ideia de uma individualidade como redoma num contexto inocente e pretensioso de autonomia de escolhas e atos.
Gosto das palavras do poeta francês Arthur Rimbaud "Eu é um outro", que  pressupõe que a noção "do Eu” vem dos processos de socialização, identidades culturais assimiladas e da projeção de esquemas mentais no mundo.
Nesse sentido, o “Eu” percebido derivaria da imagem do outro, e a sentença que "o desejo do homem é o desejo do outro" escancararia a articulação de minha (con)formação ao mundo social.  Portanto, somente a partir de um processo de crítica desse “eu alienado”, desse “Eu é um outro” que faço escutar  no interior do "si mesmo" (que não é esse Eu), uma certa essência reprimida de mim:
demandas e desejos, às vezes não nomeáveis, e etc, etc e etc.  
Por luz na discordância entre o Eu e esse "si mesmo" é um caminho esclarecedor e o único que permite tratar das cicatrizes, na medida em que toda sintomatologia negativa moderna (ansiedade, fobias. depressão, neuroses, pânico, etc) aparecerá como déficit de reconhecimento.

4 de março de 2015

Ansiedade, um déficit de vida.....


Um dos traços marcantes do nosso tempo é a ferocidade do tempo; temos a sensação que tudo passa velozmente num fluxo automático e efêmero. Seja pela abundância tecnológica que nos serve, mas que também nos impõe irreflexão, seja pelo excesso do que fazer, nem mesmo o tédio parece ter chance de existir em tempos atuais.
Suponho que a decorrência desse processo seja a forma como registramos os momentos.
Como ex-fumante gosto de usar a metáfora do cigarro. Existem os "bons cigarros", aqueles raros e ceivados de contemplação, e quase todos os outros, automáticos, imemoriáveis, úteis apenas pra evitar o desprazer de ficar sem o cigarro. É dessa forma que tratamos os eventos da vida!
Toda a ansiedade liberada desse modelo;  o anseio por tudo, a super incitação desumana frente a toda uma ordem de possibilidades e de demandas; sucesso profissional, afetivo, familiar, físico, lazer, etc, acarreta algo muito pernicioso no campo dos afetos: a dificuldades de registrar os momentos. E se você não grava em sua narrativa interna os momentos da vida, se não consegue nomeá-los, datá-los, etc; há algo inexorável em curso: um déficit de vida!