28 de outubro de 2015

Livre arbítrio, uma ideia ingênua....



Desconfio, e muito, da ideia de autonomia, que somos "gerentes eficientes" na escolha do que queremos e não queremos. O pressuposto é que somos atravessados por coisas fora da jurisdição da nossa sua consciência. Dito de outra forma, há uma série de afetos que nos colonizam, localizados na cultura do tempo em que vivemos. No mundo atual, como exemplo, há sublinhada essa necessidade de nos apresentarmos socialmente como "proprietários de bens e atributos" (ora somos performáticos, líderes, belos, empreendedores, ecléticos, flexíveis, malhados, etc). É o tempo da predicação excessiva do indivíduo exposto a mil papéis sociais.  E, sobretudo, com o lastro do medo do outro, que ameaça a segurança do que nos condicionamos a achar que deveríamos ser.
Diria que é uma recorte importante esse das identidades. Remete a refletir no que foi necessário acontecer para sermos reconhecidos como predicados e atributos (logo, mercadorias!), e o que tivemos que perder para isso. Diria que uma perda considerável, e o preço que pagamos, é que as relações sociais serviriam para "confirmar" os predicados e atributos que exibo socialmente, o que leva a um caminho de empobrecimento do ser.
Porque a relação social mais valiosa e efetiva não é a de confirmação, mas de desconstrução do indivíduo, no sentido de me obrigar a narrar diferente como eu narrava a mim mesmo. Indo fora de mim, dos meus interesses óbvios, dos desejos conhecidos e repetitivos, e no limite da da minha imagem atual, na medida em que me abro para algo além do que me reconheço.
Ou seja, criticar esses afetos que nos colonizam, o medo do outro como ameaça à minha identidade, e reconhecer o que me é involuntário são figuras da maior liberdade.
Ou seja, liberdade não é o livre arbítrio, é descobrir de fato quais são minhas necessidades legítimas!

14 de outubro de 2015

A mais forte das Leis......


Arriscaria dizer que os animais é que são seres racionais. Eles são muito mais eficientes ao usarem instintos de sobrevivência e preservação. Sabem o que fazer com os objetos à sua volta, e sobretudo sabem lidar com parceiros e inimigos. Nós, humanos, temos que aprender tudo. E, mesmo assim, fazemos crueldades impressionantes (sobretudo conosco) “impensadas” pelos animais. Esse contraste fica mais “digerível” se admitirmos que nossa história começa antes de nascermos. Todo desejo de parentes e pessoas próximas instaura uma narrativa inicial que terá importância em nossa constituição, localizando-nos num contexto cultural. Sublinho esta questão porque essa intervenção simbólica que ocorre antes mesmo de nascermos “cobrará um preço”.
É o que Lacan vai chama de “a Lei”.  Ou seja, algo se perde na passagem do “animal instintivo” para o “animal homem sujeito da linguagem”, perda que o que tornará um ser que “falta algo”. E, portanto, um sujeito dividido, marcado por uma descontinuidade, uma divisão impossível de ser desfeita e com um preço a ser pago: ter nascido desejado e tornar-se “desejante”.
Sublinho, também, que esse desejo do sujeito não corresponde à ideia de algo fora da consciência, de querer algo ou uma vontade ou um objeto específico.
O desejo inconsciente constitui-se num voto intransitivo: ‘eu desejo’, o sujeito queira ou não!
Exemplo, um menino no leito de morte do pai escuta da mãe a seguinte frase “agora você é o homem da família e vai cuidar da gente”. É a Lei. A força dessa frase poderá marcar o corpo do sujeito a ponto de todas as suas decisões em vida cumprirem, consciente ou inconscientemente, essa sentença.
Aí a importância da psicanálise, porque o “desvendar desse sujeito” o colocará diante de hipóteses, um ser mental em que é possível analisar suas intenções.
Como nos lembrou Lacan, há o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir.
É elaborando pensamentos, e não utilizando "medicamentos", que melhor percebemos à nossa volta!