7 de dezembro de 2017

Notas sobre o filme "Natureza Selvagem".......

 
Sempre quis escrever sobre "Na natureza Selvagem" (Into the Wild), filme ainda bastante cultuado e  baseado em uma história real. Mas nunca soube elaborar exatamente o quê queria dizer. Primeiro que é inegável o fascínio pelo espírito aventureiro, desprendido e desbravador de Alex Supertramp, que sai da sua zona de conforto de classe média para conhecer o mundo, em meio a uma trilha sonora fantástica. É muito difícil  não se encantar com essa narrativa! Mas acho que as cenas memoriais do conflito de Alex com seu pai fizeram muito mais registro para mim do que sua jornada libertária. E por quê? Com Freud aprendi que nosso psiquismo se constitui fazendo soluções de compromisso com nossa "rede de cuidadores". Por assim dizer, o nosso "eu" é organizado quando recebemos um nome (que não escolhemos!), quando aprendemos nos identificar pela imagem do espelho, etc. e uma porção de valores externos que vão se transformando em lei interna. Mas o que importa dizer é que há uma "cota de mal-estar"  insuperável que aparece como resto desse processo. Ou seja, sempre haverá um conflito, consciente, e muitas vezes inconsciente, que tomo a liberdade de simplificar "o que quero x o que querem (pais!?) de mim", ou "sofro por me separar daquilo que me constitui x sofro por negar o que desejo". E, nesse contexto de conflito e escolha, talvez fosse mais importante primeiro o Alex Supertramp se "separar do pai" (elaborar sua relação com ele) antes de partir. Porque ele "fugiu" mas "levou com ele" isso. E assim fazemos, neuroticamente. Queremos fugir achando que isso vai resolver, mas levamos conosco "nós mesmos" com "nossas questões". Nosso "eu" quase sempre é constituído por escolhas que não reconhecemos como escolhas, e adotar uma posição passiva de vítima sempre é mais conveniente do que nos responsabilizarmos pelo o que "fazemos com o que fizeram com a gente". 

30 de novembro de 2017

Lidando com a culpa inconsciente......para a vida se mexer.



Um dos textos mais instigantes e que, de alguma forma, me "colocou" na Psicanálise foi  "Uma perturbação da memória na Acrópole" (1936), em que  Freud escreve à Romain Rolland suas lembranças de uma viagem de verão à Atenas em 1904, que fez com seu irmão, mas que estava fora dos planos iniciais e por isso  recorda de uma grande resistência para ir (atenção nisso!). Freud narra o fato como uma experiência paradoxal de triunfo e mal-estar, e lembra ter dito em sua chegada na Acrópole: "Então isso realmente existe como aprendemos na escola?".  E é essa "incredubilidade" relatada que nos diz muito! Porque se forma como um sentimento de "desrealização", na medida em que há ao mesmo tempo uma crença consciente da existência da Acrópole (como aprendido na escola pelo pequeno Freud), mas no inconsciente,  não.  Explicando melhor: nessa lembrança Freud percebe que o "É bom demais para ser verdade!" ao testemunhar a Acrópole fazia diálogo com um pensamento infantil que retornava sob a égide do super-eu a questão da culpabilidade inconsciente, a cisão do eu, entre outros, porque era justamente o Pai de Freud que não acreditava na existência da Acrópole. Ou seja, nega-lá inconscientemente era um compromisso de identidade com o Pai, uma dívida simbólica, ao mesmo tempo que vive-la ao vivo em cores era "ultrapassar" esse compromisso com o pai, e por isso essa sensação de estranheza, de mal estar,  como uma culpa inconsciente. Ou seja, se carregarmos exageradamente nossas identidades o preço a pagar é o sofrimento de desconhecermos o nosso desejo (apesar do mal-estar, Freud se maravilha com a Acrópole), ao passo que "descobrir o mundo", embora gere culpa e mal estar, atende nossas forças pulsionais e permite que a vida se mexa. Que anda! Afinal, não é corriqueiro percebermos o quanto "não nos permitimos fazer" com as desculpas mais esfarrapadas e bem elaboradas para ficar no mesmo lugar? Freud não queria ter ido para Atenas.......  

“Eu assim nascido não quero tornar-me aquele que não investiga inteiramente o que sou”2 (Sófocles, Oidipous tyrannos, 430 a.C.)


 

26 de outubro de 2017

Do pai mítico de "Totem e Tabu", em Freud, à castração como operadora dos desejos, em Lacan.




26 de setembro de 2017

Sobre Lady Gaga e a utopia do equilíbrio......


 
Nunca prestei atenção em "Lady Gaga" até ver o documentário disponível no Netflix.  Sabia que era uma dessas super celebridades, talvez alemã, americana, inglesa. E parava por aí!  Sequer conseguia compor seu rosto no imaginário. Coisas do meu "dinossaurismo cultural defensivo", enfim, tema para outro post.
Mas o filme é bastante útil porque faz pensar a psicanálise no ângulo dessas estrelas que conseguem "tudo" muito cedo, o que fatalmente gera consequências. Nesse contexto, a vida íntima de Lady Gaga é uma obviedade, com o roteiro de sempre: o fardo da ambivalência das exigências tirânicas do show business e a a super exposição que atrai milhões de fãs e bilhões de moneys.
Mas o que toca no documentário é seu lado extremamente vulnerável, como o de Amy. O corpo da artista é uma usina de simbolismos: ágil pela dança, lindo porque é jovem e harmonioso, moderno pelas tatuagens e a moda ousada, mas ao mesmo tempo totalmente frágil. Um corpo que desfalece! Lady tem dores extremas e crônicas, espasmos musculares que a paralisam, talvez relacionados com sua inseguraça e servidão da "personagem" que criou.  Porque Lady Gaga também quer tudo: ter um amor, ser amada pelos fãs, fazer shows e músicas incríveis, estar próxima da família, não ter dores, etc e etc. E aí que vem a psicanálise: não há equilíbrio possível para o psiquismo. Entre o "não ter" e "ter muito" nunca passamos pelo equilíbrio! A falta é excessiva e vice-versa. Freud diria que o neurótico se torna prisioneiro de uma culpa insuperável, porque paga o preço de querer tudo ao mesmo tempo, viver todas as coisas e, em linhas gerais, não perder, e não ceder em nada, como "adultos infantis". Talvez o equilíbrio, esse ideal utópico, deva ser deslocado para a saudável ideia de escolher e "bancar" as consequências das nossas escolhas. É uma baita tarefa! Mas admitir que se ganha e que se perde é um passo gigante para o psiquismo, e para o corpo.

"O mundo nos adoece quando somos impedidos de simbolizar nosso mal-estar". - Sigmund Freud

10 de agosto de 2017

Permissão para xingar.....



Sou apaixonado por futebol! Apaixonado pelo meu time, o Palmeiras. Sou xiita! Xingo, defendo, brigo, provoco, choro, vibro, enfim, vivo um manancial de emoções com isso. Em derrotas e vitórias! Aliás, ambas são valiosíssimas para o teatro da vida. Há quem diga que é bobagem. Perda de tempo. No meu caso é incurável! E levo a sério. Me identifico. Descobri que é um espaço de amor com meu pai, que me carregou pro estádio há mais de 30 anos pela primeira vez. Ele era rígido! De poucas palavras. Quase sempre secas, mas demasiadamente seguras. O futebol foi o melhor espaço que encontrei para amá-lo. Para segui-lo.  Para saber de sua origem, de sua gente. Sua forma de educar era dura, mas muito organizadora. Era fácil saber o que era permitido, e o que não era. Bastava um olhar de reprovação. Bastava um gesto de permissão. Poucas palavras, muito ensinamento! De sua forma, um imigrante italiano, um homem de seu tempo. Lembro o primeiro jogo que fomos juntos, um Palmeiras x Vasco no começo dos anos 80, num sábado à noite, com bastante gente. Quando se é pequeno tudo parece maior. A luz dos refletores explodindo no verde do gramado, a chegada barulhenta da torcida, o campo enorme, a atmosfera de "guerra". Aquilo era mágico demais para mim. Mas o que lembro, em especial, era a quantidade de "palavrões" que eram ditos com os lances da partida. Xingamentos fortes! Palavras sujas e pesadas, ditas a todo tempo. Muitas eu nunca tinha ouvido. A cada insatisfação do torcedor, era atirado a uma nova gramática. Aquilo me assustou. Mas me encantou mais! Era primeira vez que via um ambiente permissivo regido por outras regras. Não falávamos palavrões em casa. Aliás, o pouco que falávamos com ele era cheio de censura. Para agradá-lo. Para não aborrecê-lo!  Mas em meio à fúria da torcida, e uma profusão de palavrões fui, como sempre, procurar seu olhar orientador. Fora um olhar, dessa vez, permissivo. Como dissesse "Aqui isso pode!". Foi mágico. Percebia que havia uma vida muito mais interessante e plena fora de casa. Onde era possível xingar. Onde era possível amar...... 



Descomplicando complexos e gatos......



Uma das contribuições de Lacan foi aperfeiçoar o "Complexo de Édipo", a partir de uma sábia releitura de Freud.  Mas  é preciso sublinhar a palavra "complexo" e seus equívocos. Não é complexo de "complexado", e tampouco de "ser complicado".  É complexo como rede, um emaranhado articulado de informações relativas à constituição do sujeito que se inseriu na família,  na sociedade e na cultura. E esse "conteúdo", prévio e dinâmico, dialogará com os acontecimento da vida gerando consequências singulares e determinando o psiquismo de cada um. Relembremos  o estudo de Jung e Breuler. Faz-se uma indução associativa dizendo palavras para participantes da pesquisa. Pai, mãe, cachorro, casamento, sexo, mar, etc. A reação narrativa das pessoas pouco tem a ver com o significado objetivo dessas coisas. E sim com a relação  subjetiva do que representam esses objetos na história de cada um.  Exemplo:  duas irmãs presenciam a violência do Pai com um gatinho de estimação. Uma, muito traumatizada, passará a responder com sofrimento toda vez que o significante "gato" se apresentar, implícita ou explicitamente, em alguma situação. A outra que não registrou tão bem na consciência a cena, passará a odiar gatos, numa clara identificação com o pai. Ou seja, o acontecimento tem tanta importância para o psiquismo como o conteúdo prévio alojado no consciente ou inconsciente. Sonhar é um ótimo exemplo.  As situações do cotidiano se conectam com conteúdos que estão recalcados no inconsciente. Uma mulher com a sexualidade reprimida  luta contra a atração por um professor, à noite tem um sonho erótico com ele porque sonhar é um ato psíquico onde a censura cede. Não é um ato de fé, portanto, acreditar nessa "estrutura" que dita o psiquismo  - por isso a ideia de "dominar os pensamentos" é bastante ingênua.  É testemunho clínico. Voltando aos gatos, já que há dois gatos, um para uma e outro para outra . Enquanto ambas não voltarem de alguma maneira à cena reatualizando o significante 'gato" em suas experiências com o pai (que significa literalmente fazer alguma coisa sobre isso) , os sintomas poderão permanecer. Ou seja, é justamente aquilo que não queremos falar, que temos que falar!

6 de julho de 2017

A encrenca de se fixar.......




No excelente documentário "Encontros com Lacan", vários de seus pacientes relatam suas experiências lidando com o estilo totalmente original e subversivo do psicanlista francês que, dentre muitas de suas marcas,  começava as sessões com a pergunta "Che vuoi? (O que você quer?). Essa e outras intervenções tinham como objetivo situar o paciente em sua insuperável divisão. E, sobretudo, na "possibilidade" de fazer alguma com isso! Afinal, não somos UM, e não fazemos UM com o outro (a completude é uma idealização ingênua). E divididos porque nos desolcamos para atender determinações dessa identificação. Prosaicamente, é possível querer enfrentar essa questão? : "O que eu quero é o que eu quero, ou o que quero é o que acho que os outros querem (de mim) que eu queira". Obviamente nossas identidades nos dão noção de pertencimento, nos ancoram, e têm um importância organizadora na deifinição de um "IDEAL DO EU", cujos mandatos (as expectativas que outros têm e que nós temos de nós mesmos) servem como bússolas. Porém, se não tê-las (identidades) é devestador, ficar fixo numa única posição de obdiência a esses mandatos é encrenca das grandes (muitos dos sofrimentos derivam daí)!  Um dos pacientes usa um exemplo emblemático: "a análise com Lacan era como receber o aperto de suas duas mãos com o conflito de uma trasmitir afeto e a outra "me chacoalhar" para a responsabilidade com o que eu quero.  Outro, um seminarista religioso, dizia que a experiência com Lacan provocou-lhe uma cisão. Mas serviu para escolher ter uma família, e mesmo assim permancer com sua fé religiosa. Esse é o ponto, Lacan, por diversas vezes em sua obra fala da experiência analítica como um recurso fundamental para seu processo de elaboração, descoberta, invenção, nas malhas da divisão do sujeito.  E esse trajeto, por sua vez, não oferece garantias da realidade, ou seja, por debaixo da fala não há nada, a não ser o que pode ser criado. O que já é bastante coisa !

“Pelo efeito de fala, o sujeito se realiza sempre no Outro, mas ele aí já não persegue mais que uma metade de si mesmo. Ele só achará seu desejo sempre mais dividido, pulverizado, na destacável metonímia da fala. O efeito de linguagem está o tempo todo misturado com o fato, que é o fundo da experiência analítica, de que o sujeito só é sujeito por ser assujeitamento ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro” (Lacan, 1964, p. 178).
   

22 de junho de 2017

"Dar o que se tem, isso é a festa, não é o amor"....aí Lacan disse.



Freud escutou de um paciente apaixonado que sua amada tinha "um brilho na ponta do nariz".  Parece prosaico, mas da a medida de como nos enlaçamos no outro. Buscamos algo que não sabemos, o que não temos. Mas o que notamos no outro é totalmente de nossa responsabilidade (criação/fantasia) e aí esta toda a diferença!  O amor é radical e ambivalente, produndo e violento, mas sobretudo narcísico. E a psicanálise deu um nó nesse conceito, incluindo as marcas inconscientes do sujeito que deseja, e que acusa a falta. Lacan em um dos seus mais ricos seminários (o 8º)  fala do banquete de Platão, e retorna à festa do nascimento de Afrodite, mito do nascimento do Amor, filho de Poros (Riqueza) e de Penia (Miséria).  Penia era uma pedinte e estava do lado de fora da festa mendigando, e Poros embriagado a encontra e concebe um filho nesse estado de torpor/dormência. Nasceu Amor, de um masculino passivo, desejável, e um feminino ativo, desejante. Ai está a chave! Aquele (o amante) que sente que lhe falta algo, mesmo sem saber o que é, supõe em um outro, o amado, que há algo que o completa. O eleito (o amado), por sua vez, fantasia ter algo a dar, mas não sabe bem o que é. Mas também é "falante" (sujeito da linguagem), e portanto faltante, como o amante.  E aquilo que o amado supõe ter para dar, não é o que falta ao amante. Assim ambos têm a dar um "sabe se lá o quê (um nada)". Porque o amante não sabe o que lhe falta, e o amado não sabe o que tem, e esse é um "não-saber" fundamental do inconsciente. O amor é um equívoco, portanto! Mas necessário. Afinal, como na festa do nascimento de Afrodite, se Poros e Penia soubessem o que faltava a eles gerariam Amor?

20 de junho de 2017

Não ceder de seu desejo.....a ética na psicanálise.



Uma importante diferença do campo da psicanálise, e outras terapias, é sustentar que o sujeito do inconsciente não é idêntico ao Eu. E isso tem relevantes consequências no manejo clínico.  Freud destrinchou o processo de constituição do Eu e os eventos determinantes para o psiquismo. Um, que chamarei de "castração imaginária", tem especial relevância porque remonta a encruzilhada estrutural de nos lançamos nas identificações parentais, na linguagem, na cultura, que são vias fundamentais para constituição do Eu. É fácil supor que algo cai da relação perfeita bebê/mãe. Primeiro desmamamos, depois ganhamos outro irmãozinho que merecerá mais atenção, depois a mãe é desviada para olhar/dormir com o pai, etc. e etc.Os exemplos são muitos, e o que importa é o caso a caso. Mas somos, e justamente pelo efeito da cultura, lançados a uma posição de perda, de falta inexorável, porque obrigatoriamente cairemos do lugar "bebê única causa de desejo da mãe". Tal legislação dura e castradora pode ser negada, renegada ou foracluida (e isso vai definir as estruturas clínicas, o que é assunto para outra hora). Mas se trata de uma frustração insuperável, pois UM (bebê) e OUTRO (a mãe) jamais farão UM. E outras relações que virão EU/OUTRO também. Ou seja, ao mesmo tempo que é uma baita "ferida narcísica", é também  organizadora, porque atravessa o corpo numa experiência de perda, mas circunscreve o sujeito em uma posição de se elaborar.
Prosaicamente, saímos da condição de "sermos falados" para "falar", como no exemplo "o Joãozinho é muito inteligente" narrado pelos parentes, para o próprio Joãozinho se reconhecer em primeira pessoa e dizer "eu quero isso/aquilo/aquiloutro, etc".  Ai que está a genialidade da coisa, somos "falados" e ganhamos um mandato dos nossos pais/sociedade. Isso é muito importante porque nos organiza nas identificações, mas ao mesmo tempo ficar SÓ nessa posição é uma encrenca cheia de idealizações que faz sofrer bastante. E angústias dessa natureza são extremamente correntes. Como a negligência de atendê-las! Afinal, restituir o Eu desse lugar para o sujeito ser constituido em outro é um trabalho e tanto! Portanto a diferença é que há um cálculo na psicanálise que a perda não é um déficit e nem uma falha como o neurótico quer acreditar.  A perda é condição fundamental para o desejo. E o sujeito vai se entreter com vários objetos contingentes (comprar um carro, ir pra Paris, ter um filho, publicar uma foto no Instagram, ter um novo namorado/a, e etc.), e isso nunca será suficiente. E portanto uma boa escuta psicanalítica é não ficar preso a esses emaranhado narrativo "dos objetos que tenho/quero" na inflação do Eu.  É dar suporte para o paciente poder se enxergar em outro lugar. E, como sabemos, os neuróticos têm vários truques para nada saber sobre sua falta/desejo (adiamentos, impedições, embaraços, fugas, etc), e o bom trabalho na análise é transformar essas "demandas de amor narcísicas" num desejo de querer saber sobre seu desejo. Fazer o anlisante não ceder, se implicar e se responsabilizar pelo que realmente deseja. Mesmo que isso seja um trabalho duro e demorado.  Eis a ética da psicanálise!

26 de maio de 2017

A palavra que marca o corpo......sobre pais e filhos!


 
Não é necessário fazer análise para entender o poder da linguagem (simbólico) no imaginário, e sua repercussão no corpo (sintomas). Gosto de dar o seguinte exemplo prosaico: imagine uma criança vigiada pelos pais em um ambiente público. Com a possibilidade de explorar um mundo diferente dos seus domínios, a criança se aventura e testa o que lhe é permitido fazer. E, sabemos, há pais mais ou menos permissivos, servindo como autoridade (a lei) para intermediar os limites dos filhos. Ou seja, há a experiência infantil, sempre útil, e uma intermediação dos pais, legisladores dos atos das crianças. O fato é que se essa mesma criança testar a autoridade dos pais, como por exemplo uma restrição de "não trepar na cadeira", e se der mal e cair, sua resposta afetiva (chorar ou não) e a intensidade da dor estarão proporcionalmente vinculados à reação dos pais. Numa escala oposta, eles podem dizer de um agressivo "Bem-feito, eu avisei sua peste!" e um "Não foi nada meu anjo, vai passar", cujo resultado serão sentimentos e dores de intensidade bastante diferentes. Daí não é difícil supor como as palavras "atravessam" e "marcam" o corpo", numa multiplicidade de exemplos que acontecem também na vida adulta.
E é importante imaginar as consequências devastadoras para crianças cujos pais não cumpram sua função simbólica de estabelecer uma  legislação que não seja incoerente e vacilante (uma hora pode, outra hora não pode!?).

22 de maio de 2017

O "corte" do simbólico....

5 de maio de 2017

É preciso dar nome ao Tsunami interior (angústia).....



Lacan ao longo de sua jornada psicanalítica introduz o ternário (Real - Simbólico - Imaginário) no campo analítico e ao fim o identifica a um nó borro-meano de três elos.  É um assunto bastante denso, mas basicamente se trata de três registros psíquicos na constituição o sujeito. O registro do simbólico que é o lugar da linguagem. O imaginário, da relação dual com a imagem especular eu/outro - o sujeito só consegue se constituir diante da confirmação dada pelo olhar "demandante" do outro. E o real, tudo o que não pôde ser simbolizado. Uma boa metáfora para explicar essa articulação seria supor uma situação aterrorizante de um desastre natural. O sujeito se encontra em uma praia quando aparece um surpreendente Tsunami. Ele sobrevive! A experiência (imaginária) estará guardada e inominada. E exatamente quanto ele constitui a narrativa que enlaça ele na experiência (fantasia/invenção) é que o horror (real) perde a potência.
Em uma escala corriqueira, não são assim os fatos do dia-a-dia? Maledicências, pavores, frustrações, invejas, medos, dissabores, ameaças de toda ordem e etc. A angústia (o real) que convoca o sujeito a elaborar e "dizer sobre" (o simbólico) "corta" o que tinha sido apreendido (imaginário), dando outros significados, podendo remover sintomas e vencer fantasmas do sujeito. Bom exemplo também é o quadro "O grito".  Ao pintá-lo, Edvard Munch pôde expressar (simbólico) algum processo de angústia (real) através de um grito que mesmo sem som é possível percebê-lo. Com certeza ele se sentiu muito melhor depois de fazê-lo!