5 de maio de 2017

É preciso dar nome ao Tsunami interior (angústia).....



Lacan ao longo de sua jornada psicanalítica introduz o ternário (Real - Simbólico - Imaginário) no campo analítico e ao fim o identifica a um nó borro-meano de três elos.  É um assunto bastante denso, mas basicamente se trata de três registros psíquicos na constituição o sujeito. O registro do simbólico que é o lugar da linguagem. O imaginário, da relação dual com a imagem especular eu/outro - o sujeito só consegue se constituir diante da confirmação dada pelo olhar "demandante" do outro. E o real, tudo o que não pôde ser simbolizado. Uma boa metáfora para explicar essa articulação seria supor uma situação aterrorizante de um desastre natural. O sujeito se encontra em uma praia quando aparece um surpreendente Tsunami. Ele sobrevive! A experiência (imaginária) estará guardada e inominada. E exatamente quanto ele constitui a narrativa que enlaça ele na experiência (fantasia/invenção) é que o horror (real) perde a potência.
Em uma escala corriqueira, não são assim os fatos do dia-a-dia? Maledicências, pavores, frustrações, invejas, medos, dissabores, ameaças de toda ordem e etc. A angústia (o real) que convoca o sujeito a elaborar e "dizer sobre" (o simbólico) "corta" o que tinha sido apreendido (imaginário), dando outros significados, podendo remover sintomas e vencer fantasmas do sujeito. Bom exemplo também é o quadro "O grito".  Ao pintá-lo, Edvard Munch pôde expressar (simbólico) algum processo de angústia (real) através de um grito que mesmo sem som é possível percebê-lo. Com certeza ele se sentiu muito melhor depois de fazê-lo!

  

28 de abril de 2017

Quando sofrimento e sucesso andam juntos.....

 
É um tipo de sofrimento bastante corrente aquele em que o sujeito se entrega incondicionalmente a uma imagem idealizada de si. Comum e que faz pensar, porque é uma forma de servidão voluntária (dívida simbólica) enfeitada, bonita e vistosa. Exatamente porque há sucesso e êxito social envolvidos. O sujeito é bem sucedido profissionalmente e economicamente, é inserido em uma "família ideal", em um projeto de amor, é belo e admirado, etc. E é justamente em nome dessa imagem (eu ideal) que ele se submete cruelmente a sacrifícios de toda ordem (investe contra si), e é preciso um esforço considerável  para se deslocar dessa posição. Isso porque requer ceder em alguns pontos que custam à sua imagem (fantasia/fantasma). Contam que alguns pacientes que chegavam à Clínica de Lacan, tendo o sofrimento como porta de entrada, estavam situados nessa posição. E, aos poucos, e com o avanço da análise, iam "perdendo" alguns atributos extremamente valorizados no contexto do social. E, obviamente, as pessoas cogitavam que a análise estava "piorando" o sujeito. Mas era o contrário.....

18 de abril de 2017

"13 reason why" - É preciso falar dos porquês.....



Assisti "13 reason why" no embalo de um suspense que te fisga e te leva compulsivamente ao desfecho.
No começo parece bobinho, com aquela atmosfera pasteurizada de Community Colleges americanas exageradamente explorada em filmes e séries, cujos estereótipos e sensos comuns implodem uma melhor elaboração ficcional. Mas logo a trama vai ganhando densidade e novos contornos, e o resultado final é muito interessante! Apenas duas coisas para dizer: li ali e aqui que a série deveria ser vista com cautela por abordar o suícidio juvenil, e o risco de instigar outros jovens. Penso radicalmente diferente! Aliás, sem fazer spoiler, a série trata justamente disso. Da "palavra aprisionada", de uma angústia radical (possível a todos!), do vazio e da sensação de "não-pertencimento" de uma jovem, fruto de um ambiente que destrói a espontaneidade e o desenvolvimento das narrativas individuais. Talvez seja esse o melhor ângulo do Bulling. De ser uma construção cultural do nosso tempo, subjacente a um estilo de vida alienado cujas opções são demasiadamente restritas, fartas apenas na aparência.  Freudianamente falando, da submissão coletiva a um superego interno tirânico e impiedoso, erguido a partir de identificações e ideias empobrecidos.     



6 de abril de 2017

É preciso o mundo desabar......

 
É muito comum sofrermos pelo o que não aconteceu. Como também, desconsideramos o que é parido no ato de sofrer. De uma certa maneira, há um momento em que a consciência precisa se angustiar. Com o propósito de redimensionar a experiência da vida. Um estágio que marque o desabamento de imagens de um mundo, e o erguimento de outro, que permita novas ações, desejos e movimentos. Eis o caráter ambivalente dos afetos. O desamparo que me angustia, pode ser o motor de uma reinvenção.
Freud vai nos lembrar que nossa primeira angústia fundante é a ausência da mãe. E dialogaremos com esse desamparo, revestido em novos fantasmas, por durante toda uma vida.
E assim seguiremos  nesse sujeito inseguro e neurótico que vai constituir substitutos ("outras mães"), que garantam nossa integridade narcísica, nossa demanda de amor e, sobretudo, nossa fantasia de sermos únicos e maravilhosos. Ou seja, seremos eternamente escravos a procura de um Senhor que nos diga o que fazer e, principalmente, que confirme que o fazemos é incrível, retornando ao estado de perfeição do "bebê majestade" que um dia fomos. Friso que é bem essa a posição neurótica que assumimos, de perguntar ao grande Outro (pessoas ou um outro simbolicamente constituído) "o que devo fazer" e depois cobrar ansiosamente a esse Outro a confirmação que o que eu fiz é sensacional.  Nesse contexto, uma travessia analítica útil cumpriria um percurso radical, de "desabar desse mundo".  De ter a angústia como porta de entrada, e na saída a liberdade de não estar submetida a um Outro imaginário que me escraviza!

24 de março de 2017

Narcisimo: tão velho quanto o primeiro ser humano.

 
Em 1914, Freud escreve "Sobre o Narcisismo: uma introdução", um texto importantíssimo para a evolução de sua teoria. Tal termo, aprisionado na linguagem popular corrente, sugere uma qualificação negativa do sujeito, excessivamente "enamorado" de sua própria imagem. Ainda mais em tempos de exagerado exibicionismo nas redes sociais!
E verdade, Freud não fala nada disso. Ele "despatologiza" o conceito, como aliás é o mais fantástico em todo seu projeto: revelar o normal, a partir do estudo que é considerado patológico. Enfim, a utilização deste conceito revolucionou sua teoria porque produziu novos desdobramentos no desenho do aparelho psíquico. E formulou a ideia como "complemento libidinal da pulsão de auto-conservação". "Descomplicando", o complemento aí é no sentido de expressar a "narcisização do sujeito humano” como via fundamental de toda possibilidade subjetiva; o ato de adquirir um corpo capaz de acomodar um "Eu", que uma vez constituído, sempre será ameaçado e por isso veículo de constante "investimento' para sua manutenção/proteção. Ou seja, com Freud temos que o "Eu" (ego) é desenvolvido, ele não "cai do céu", do nada. E haverá sempre uma modulação de doses de libido distribuídas para investir nesse "Eu" (ego) ou/e em objetos (outros), que pode contribuir para a definição de algumas estruturas clínicas  Exemplos? Alguém muito apaixonado: rebaixa seu amor próprio, e "investe" tudo no objeto (pessoa amada). Um sujeito com uma terrível dor dente. Tudo fica secundário, e todo investimento no Eu (ego) para enfrentar a dor. Ou seja, o narcisismo é tão velho quanto o primeiro ser humano. Não é sensacional?

20 de março de 2017

De repente, Outono.














De repente, outono.
O calor cede.
Os corpos se escondem.
As cores se recolhem.
De repente, outono.
A euforia cessa.
O ano começa.
A vida endereça.
De repente, outono.
As folhas no chão.
Tempo, céu azul.
Vinho e Blues.