4 de março de 2015

Ansiedade, um déficit de vida.....


Um dos traços marcantes do nosso tempo é a ferocidade do tempo; temos a sensação que tudo passa velozmente num fluxo automático e efêmero. Seja pela abundância tecnológica que nos serve, mas que também nos impõe irreflexão, seja pelo excesso do que fazer, nem mesmo o tédio parece ter chance de existir em tempos atuais.
Suponho que a decorrência desse processo seja a forma como registramos os momentos.
Como ex-fumante gosto de usar a metáfora do cigarro. Existem os "bons cigarros", aqueles raros e ceivados de contemplação, e quase todos os outros, automáticos, imemoriáveis, úteis apenas pra evitar o desprazer de ficar sem o cigarro. É dessa forma que tratamos os eventos da vida!
Toda a ansiedade liberada desse modelo;  o anseio por tudo, a super incitação desumana frente a toda uma ordem de possibilidades e de demandas; sucesso profissional, afetivo, familiar, físico, lazer, etc, acarreta algo muito pernicioso no campo dos afetos: a dificuldades de registrar os momentos. E se você não grava em sua narrativa interna os momentos da vida, se não consegue nomeá-los, datá-los, etc; há algo inexorável em curso: um déficit de vida!

4 comentários:

  1. O Observador de nuvens.

    “ 'Horizonte: des-vendável' diz o mercador”
    Murilo Mendes


    Num clique tudo
    se desarvora todo arranjo de flores
    e dignidades digitais tudo se descompreende
    numa esquizofrenia de pixels, tudo

    e esse tudo é um encontro fortuito
    que descarrilhou uma valsa que estourou
    um beijo invertendo-se em estio, tudo

    num piscar de olhos transmuta rápido
    demais o sequestro das entrelinhas
    do horror das sombras no quarto (exclui-se o quarto)
    do inseto desconhecido na tarde de sábado

    tudo, pois o estudo da lágrima está falido
    o eterno ladrão no quintal o bandido
    solto pelo seu corpo o blues em goles
    lentos de nostalgia ferida falida falido

    nada
    agora
    é mais unânime que o fuzilamento

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  2. Acho que o meu poema acima se liga de certa forma a seu belo texto....

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  3. maneiro o texto, externa uma realidade da qual fazemos de conta que não existe mas somos super apegados a ela.

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