28 de outubro de 2016

Lidando com os desejos...

Quando Freud fala sobre as pulsões propõe algo radical. O homem é um acidente da natureza, temos algo muito além dos instintos, podemos dar nome às coisas, o que torna nosso mundo muito mais interessante e perigoso. Ou seja, as sensações que derivam das possibilidades do corpo são registradas numa gramática própria. E o sentido do que se diz está num plano superior do que é verdadeiro ou falso. É mais valioso! Porque afirma a necessidade de figurar o mundo interno radicalmente singular de cada um. Como escutar de alguém que “a grama é vermelha", proposição ilógica e absurda, mas que acusa uma intenção afetiva de quem fala. 
Freud gostava de usar sistemas pra enquadrar o que inventava, utilizava termos hidráulicos, da economia (investimento libidinal, desinvestimento, bloqueio das pulsões), topologia (tópicas) e etc. Por exemplo, a ideia fundamental de recalque,  Verdrängung em alemão, algo como "força que bloqueia a pressão", transmite a ideia que intencionalmente (e de forma inconsciente) bloqueamos/censuramos alguma força interna, que poderia ser atendida nos termos de uma vontade psicológica. E essa operação de "bloqueio" gera seus derivados, que aparecem em sonhos, lapsos e, no pior (ou melhor) dos casos, em sintomas patológicos. Isso é interessante porque impõe a necessidade de desenvolvermos estratégias pra lidar com a energia disponível desse "aparelho humano". O de equilibrar um lado permissivo de atender parte das demandas internas (prazeres do corpo), renunciar outra parte (em nome da cultura, em prol de quem amamos, etc.) e sublimar outra, que significa renunciar o que não é possível, optando por uma realização substituta, essa bem mais trabalhosa (não posso "devorar" uma pizza, um corpo, mas "devoro" um livro). Capiche? 

2 comentários:

  1. Umberto, na sua opinião o que é melhor, você substituir o seu desejo por uma realização substituta em prol da melhor conduta "da sociedade " ou se arriscar e não se reprimir?

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  2. Oi Ca Coelho! Penso que é uma difícil resposta. Porque nunca pode ser tratada no atacado, mas no varejo da vida afetiva de cada um. Pensando em economia psíquica, ambas têm custo e retorno de alocação de energia. É preciso elaborar os ganhos e consequências. Dependendo o quão caro, há momentos que é necessário assumir riscos e não se "curvar" ao modelo (lembrando que esse modelo é sempre interno), e há vezes que devemos fazer renuncias que em nome da cultura, de alguns valores que acreditamos, de pessoas que amamos, etc. Espero ter ajudado!

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