27 de dezembro de 2013

As dores do nosso tempo....



Freud explorou com maestria a ideia de um "super ego" constituído a partir de um modelo social
repressivo: a vida familiar com pais punitivos e disciplinadores, as empresas com chefes truculentos e insensíveis, e a existência de um deus rigoroso e fiscalizador.
Naqueles tempos de dicotomia entre o "proibido e o permitido", os desejos e fantasias eram,
comumente, bloqueados antes de seu anúncio.
Ou seja, se não posso manifestar meu desejo por proibição interna, tenho consideráveis chances de desenvolver neuroses de toda ordem (histeria, obsessão, fobias, etc).
Esse processo sai de cena.  Desde dos anos 60 os modelos repressivos ficaram totalmente obsoletos.
Pois bem, o modelo atual é totalmente diferente. Nossa sociedade tem como mantra provocar e incitar o desejo (consumo) sem limites: "seja você mesmo", "aja da sua forma", "você pode tudo".
A dicotomia de agora não é mais entre o "proibido e o permitido", e sim entre "o possível e o impossível".
O ponto é que talvez esse modelo de "super incitação" seja mais brutal do que repressivo.
Explico: se no modelo repressivo a angústia gerava conflito (eu quero poder desejar!), no modelo de hoje todas as frustrações caem  nas costas do indivíduo, e não na vida social, no sistema.
E onde não há, aparentemente, nenhuma restrição, qualquer tipo de satisfação é uma traição.
Dito de outra forma: quando todas as possibilidades se abrem da mesma forma, qualquer escolha será sempre limitada e insatisfatória.
Ou seja, a sensação de fracasso se dá por não realizar, ou por não tentar, todos desejos possíveis.
Ai nesse contexto é a depressão a doença da moda. Porque na prática ela significa um "cansaço de si mesmo". Ou, extrapolando, a covardia psíquica de não desejar mais.

Um comentário:

  1. Confesso que não esperava encontrar um blog tão reflexivo e artes como definição de atividade.

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