13 de novembro de 2014

Um colecionador de pessoas.....



David Bowie é um artista que sempre me impressionou.
No excelente documentário "Five Years" ele faz um curioso auto-retrato que nos serve a reflexões além-das-artes: "eu sou um colecionador de pessoas". Tal posicionamento estético explica seu lado camaleão; a necessidade violenta de se reinventar, a gula por novas experiências, a liberdade de emergir novas personas, o destemor diante da rejeição do público, etc. Mas a frase também é boa provocação à experiência real - como dialogamos com nossos desejos no campo das relações humanos, dos afetos, do que queremos alcançar.
É sempre tentador sermos excludentes em nossas análises; "dependência ou autonomia"; "apego ou liberdade", "partir ou ficar", "abandonar ou encontrar", "sair ou voltar.", e isso está nos modelos que nos servem à interpretação, quase sempre comparações que tem como contrapartida a "maravilha da vida dos outros", seguramente imprecisas. Em psicanálise, o grande avanço é a travessia, sair de uma posição a outra, pois o atravessamento do fantasma (nossa fantasia interna) permite que reinunciemos ao desejo de submissão ao gozo do Outro (o grande outro!).
E é exatamente esse caminho que não abandona nossa "obra de autoria", a tarefa bem mais difícil, mas bem mais edificante, de acomodarmos nossas legítimas aspirações diante das possibilidades do mundo. Nesse contexto, e paradoxalmente, "colecionar" possa ser um meio muito mais original e corajoso do que reproduzir o óbvio.

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